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Manga Lima

Manga Lima

16
Out18

15 de Outubro de 2018 - 6 anos depois

Ju

Foi ontem. Quis a vida e o destino que fosse ontem, 6 anos depois de eles terem ido viver para o outro lado do oceano, que a obra começasse. Que o caminho que os vai fazer regressar começasse a sério. Quis também a vida e o destino que fosse ontem que a imobiliária me mandasse o e-mail a dizer que vão publicitar - finalmente - a casa. Foi ontem que acordei com estas duas notícias, ou estas duas mensagens no telemóvel. Por breves segundos senti que o universo começou a conspirar a nosso (meu) favor. Por breves segundos senti que sim, é possível e real e eles vão voltar. Fez ontem seis anos que o mundo me desabou em cima e perdi o chão: eles trocaram de país e de vida e eu fiquei completamente perdida e vazia, sem sentido para a vida. Foi e tem sido o maior desafio que a vida me poderia ter dado algum dia. Têm sido demasiados dias, noites, horas, natais, festas sem eles. Têm sido demasiados os momentos em que me resta desabar e chorar as saudades deles. As alturas em que só me apetece dar-lhes um par de estalos porque me destruíram, de certa forma, os sonhos quando largaram tudo. Ontem senti que começamos a inverter a vida para o lado certo, que os ponteiros começam finalmente a girar corretamente. Ainda falta algum tempo, ainda há voltas a dar e muito por acontecer... mas ontem começou. E não vai parar. Ontem trocamos o sentido dos ponteiros do relógio das nossas vidas. Ontem demos o primeiro passo. É só mais uns passos e estamos lá, no regresso final deles.

13
Out18

A vida corre...

Ju

Já há muito que não escrevia aqui. Não tenho ainda nada de novo. O estágio continua normal. Os contratos com as imobiliárias para mudarmos de vida também. As obras estão a começar. Tenho largado tudo por isso e feito tudo o que é humanamente possível. Quis a vida (e o destino, seja isso o que for) que as obras tivessem data de início marcada para o dia em que se completam seis anos que os meus pais foram embora para o outro lado do oceano. Quis também a vida (e o destino) que eu fosse, sem o planear, estar do outro lado do oceano com eles nesse dia. Segunda-feira completam-se seis anos e lançamos a primeira pedra de um novo ciclo e de uma nova vida. Quando naquele primeiro sábado de setembro chorei desalmadamente a distância deles, o aniversário que não tinha vivido, o suicído do meu amigo e o desamor me marcava o coração a ferros, peguei no computador e a única coisa que fui capaz de fazer sentada no chão do quarto foi marcar uma viagem para vir abraçar os meus pais. É assim que dia 15 de Outubro, segunda-feira, vamos estar longe (muito longe) da obra fisicamente mas vamos sorrir e lembrar que o primeiro passo foi dado e mudar de vida é já aqui. De maneira que a minha vida tem sido isto: estágio, fazer tudo e mais qualquer coisa para colocar as imobiliárias a trabalhar e as obras a começar, desejar todos os dias que o regresso deles seja já aqui e viver o desamor sem me perder. Continua, na verdade, tudo igual: eles não voltaram ainda e ele continua a deixar-me o coração à toa e a cabeça nublada. Enquanto ele me mexer assim com o coração vai ser difícil... enquanto nada acontecer vai ser difícil... esta é a parte da vida que mais me vai doendo. Não tenho tido muito tempo mas vai doendo... qualquer coisa da parte dele me deixa profundamente triste ou profundamnete feliz e eu não tenho coração para tanto. Esta montanha russa esgota-me a cabeça e o coração. Espero dias mais calmos e construtivos.. espero mesmo. Espero que daqui a um ano a vida seja outra. E há-de sê-lo.

27
Ago18

Agosto quase no fim

Ju

Estamos quase no fim deste mês e eu sabia, sempre soube, que ia ser um mês que me ia doer na alma. É um mês sempre demasiado grande (e demasiado colorido) quando não estamos bem e quando o coração está ferido. É um mês sempre difícil. Há seis anos que não tinha um Agosto tão doloroso. Esse foi o primeiro em que soube que a minha vida ia mudar e perdi o chão. Depois, há cinco anos, também me doeu tudo numa aprendizagem daquilo que era viver sem eles. Nos últimos anos a dor foi amenizando, talvez com o hábito, e os Agostos foram sendo difíceis mas ultrapassáveis. O Agosto do ano passado foi, sem eu o poder imaginar na altura, um marco. Foi o mês em que ele me fez bater de frente naquilo que sentia por ele quando, naquela sexta feira à noite, usou a palavra coração no sítio mais bonito da minha infância. Passou um ano e eu sabia que também por isso este Agosto me ia deixar afundada em sentimentos e mágoas. Ele falou em coração e depois tudo se passou como se nada nunca tivesse acontecido e a vida seguiu e segue. Ele pode não se lembrar, e eu também não queria, mas a verdade é que eu estive lá e não sonhei. Estive lá e ouvi. E isso deixou-me de coração desfeito durante (quase) todos os dias deste último ano. Não sei quanto mais tempo ele me vai conseguir deixar neste estado, e não sei quanto mais tempo isto vai durar ou quando ou como vai acabar. Estou constantemente exausta e desgastada por isto mas infelizmente isso não me permite deixar de ter sentimentos por ele. Ele tinha de ser a última pessoa por quem eu algum dia teria sentimentos. Aquela minha praia de infância tinha de ser o último sítio onde esta história teria de ficar marcada. Aconteceu e eu, humana que sou (porquê?), apaixonei-me sem saber e sem me dar conta nunca. Claro que tinha de ser uma história assim. Só quero, mais do que qualquer coisa na vida, que isto passe. E (espero!) o que tiver de ser será. 

08
Ago18

A mesa de pedra

Ju

Hoje voltei a entrar na Frondosa. Estava de coração pesado (quão difícil e interminável consegue ser Agosto quando nos falta a família, o amor é dor e tudo nos magoa?) e entrei. Fui à parte de cima para voltar a pisar a terra que tem nela todos os nossos sonhos e um futuro à espera de acontecer. Era fim de tarde e a mistura entre o sol e a sombra à volta da nossa casa velha de pedra, que em breve há-de ser reconstruída e materializará sonhos, era demasiado bonita. Antes de entrar e enquanto estive por lá a mistura de emoções fez-me largar uma série de lágrimas: a vossa ausência a doer-me, numa dor multiplicada por estarmos num mês que devia ser dos mais bonitos e especiais para nós; a quantidade de sonhos à espera de acontecer que aquilo significa; a vontade gigante e inexplicável de que tudo aquile fique (re)construído rapidamente e esteja pronto; o medo do tamanho do mundo de que algo possa correr mal ou demorar; a minha necessidade profunda de vos ter por perto, sempre; a certeza de que o nosso e vosso lugar é aquele e era lá que vocês já deviam estar; a vontade profunda, intensa e indizível que tenho de vender o café e o medo de que possa não acontecer; a vontade de vender a casa de baixo; a vontade de mudar tudo e tão pouco depender de mim e das minhas ações; o (des)amor que tenho por ele e as dúvidas, angústias, incertezas, tristezas, dúvidas, esperanças e desesperanças que isso me traz; os sentimentos que ele fez nascer e crescer em mim sem, talvez, ter grande ideia disso e a dor que isso me provoca, ou a dor que me provoca não o ter; eu ali e ele sempre perto demais e longe ao mesmo tempo, eu ali e a sensação constante que tenho de estar nos braços dele sem nunca ter estado nos braços dele; eu ali e ele com um lugar cravado na minha cabeça e, por isso, no coração (ou no coração e, por isso, na cabeça); Andei à volta da casa, pisei e repisei a terra, subi as escadas, fui pelo terreno e todos aqueles sentimentos tornaram aquele momento intenso. Era eu e a ausência deles a moer-me o coração, era eu e a esperança que aquelas paredes à espera de serem reconstruídas transmitem, era eu e a vontade profunda e intensa de que eles voltem, era eu e a necessidade de vender o café e a vontade de vender a casa, era eu e o medo que me corta a respiração de que aquele projeto-sonho não se materialize, era eu e o medo que me deixa sem chão de que o café não seja vendido. Era eu e, sobretudo, o meu coração às voltas, por este (des)amor que insiste em não desaparecer. O meu coração tonto e a cabeça às voltas sempre a pensar nele... e na (im)possibilidade de percorrermos um dia aquele chão e aquele caminho de mãos dadas e corações afinal ligados... na (im)possibilidade de um dia lhe dizer que, quando o outro dia o projetista me disse que um dia podia casar ali, sorri e só me consegui lembrar dele (a acontecer, acho que só seria capaz de verbalizar isto depois de já termos as alianças nos dedos). Depois fui para a parte de baixo e andei até ir para a mesa de pedra. Sentei-me na mesa de pedra e percebi muita coisa. Percebi acima de tudo que aquela casa de baixo devia ser vendida e que ela e tudo o que de incrível ali existe perdeu o encanto à custa destes anos de ausência deles. Percebi que aquilo que supostamente será um "paraíso" para qualquer pessoa tem sido o lugar que me marca a ausência deles. Tem sido o lugar onde a vida (e a minha vida) devia acontecer e não, é apenas o lugar onde um dia houve vida, amor e família. Percebi que aquilo que o meu pai sonhou quando pensou a casa perdeu todo e qualquer encanto. Perdeu valor e perdeu tudo. Foi a casa onde um dia fomos vida, família e amor. Tem sido, nestes últimos seis anos, a casa que marca a falta de vida e de família, numa lembrança dolorosa. Eles voltarão e, dependendo de mim, aquela casa terá outras vidas nas mãos de outras pessoas. Posso estar errada ou não, mas aquele projeto de casa falhou... falhou redondamente quando ontem me sentei na mesa de pedra e as lágrimas me mostraram que não foi para chorar a ausência deles que aquela pedra foi lá colocada; que o meu pai deve ter mandado colocar lá aquela mesa de pedra para partilhar refeições e sorrisos em família, não para que uma Ju chegasse aos quase 24 anos e se deitasse lá em lágrimas e de coração desfeito. A casa poderá ou não continuar a ser nossa, mas merecerá de certeza quem a encha de vida, amor e sorrisos. É uma casa com demasiada luz para que ninguém viva lá. Poderá continuar a ser nossa, e ver-me um dia a subir as escadas com um filho meu e de sorriso-milagre no rosto. Poderá não ser nossa, e eu subirei outras escadas lá perto com o filho e o sorriso. No meio de tantas nuvens só posso ter uma certeza: temos de mudar de casa e (re)começar, temos de mudar de casa e (re)aprender a ser família, temos de mudar de casa e (re)ordenar as nossas vidas. Eu não pertenço à casa onde estou, por mais amor que haja lá, e eles não pertencem àquele país nem àquela casa. É hora de (re)fazer as malas e voltarmos ao nosso círculo de luz!

03
Ago18

O estado das coisas

Ju

Eles foram embora terça e eu confirmei mais uma vez que nunca nenhum filho se deveria ter de despedir dos pais e da irmã, largando-os no aeroporto sem data para os voltar a ver. Ficou-me a esperança e a crença de que não o terei de voltar a fazer... o desejo profundo de que aquela tenha sido mesmo a última vez que um aeroporto nos viu despedir. A mim, resta-me torcer para que o regresso definitivo deles aconteça o mais rapidamente possível e resta-me fazer tudo o que puder nesse sentido. Quanto ao (des)amor já não sei o que dizer. Penso, repenso, vejo, revejo, ponho hipóteses, zango-me, choro, sonho, acredito, sorrio, acredito e esgoto-me. Acima de tudo, esgoto tudo nesta mistura de sentimentos por ele e nesta bipolaridade de ter esperança e ter de a enterrar toda e voltar a ter esperança. É uma estrada em círculos que me desfaz o coração e, o mais triste de tudo, que me impede de acreditar no amor e me deixa cada vez mais marcada. O que mais me dói é isso: saber que fico tão ferida que será ainda mais difícil algum dia, alguém, conseguir conquistar este coração e fazer-me sorrir. Resta-me deixar a vida (e o verão) correr e ir acreditando que eles voltarão e que o amor um dia será um lugar feliz com quem tiver de ser. Por agora é apenas isto... continuar a sobreviver por entre as pancadas da vida pedindo tréguas.

27
Jul18

26 de Julho de 2012, 6 anos depois

Ju

Passaram-se seis anos desde aquela manhã de Julho em que tudo se começou a desmoronar à minha frente. Uma manhã normal, uma consulta numa cidade diferente e duas viagens de comboio. Mais um dia simples de Verão, pensava eu na minha inocência. Depois atravessamos aquelas ruas, já no fim da consulta, e lembro-me vagamente de tudo. Das ruas, das linhas do elétrico, dos semáforos e de tudo o que comecei a ouvir sem querer acreditar. Lembro-me de eles começarem a dizer que queriam ir embora para outro país, lembro-me de ter dito em voz sumida e apagada para evitar um grito que "eu tenho um curso para fazer AQUI", e só não adicionei palavrões porque não fazem parte de mim. Lembro-me levemente de tudo e ainda não imaginava nada do que se seguiria. Quando chegamos à estação de comboios para voltar já só conseguia verter lágrimas e já não tinha voz. Lembro-me de passar a viagem de volta toda em silêncio e com lágrimas a caírem-me ininterruptamente pela cara. Lembro-me que eles foram continunando a falar e lembro-me ainda mais do estúpido do slogan que estava colado pelo comboio todo "Próxima paragem: mudar a sua vida". Estúpido e mais irónico que estúpido. Nunca a CP conseguiu um slogan que se adequasse e impregnasse tanto a um momento da vida de alguém como aquele, naquele dia e naquele momento. Soube, nas ruas daquela cidade e entre aqueles semáforos, que a vida como eu a conhecia estava a acabar ali. Dezassete (quase dezoito) anos de uma vida tranquila e de uma família que era a definição de amor. Dezassete (quase dezoito) anos e todos os sonhos do mundo a ruírem. Dezassete (quase dezoito) anos e eu a ficar sem chão e sem a família. Não é todos os dias que um pai e uma mãe nos anunciam que vão viver para uma cidade do outro lado do oceano... que só por acaso é o último sítio onde algum dia viveríamos. Mas aconteceu e aconteceu naquele dia. Aquela menina que naquele dia ouviu aquilo não imaginaria a força que teria de ter para sobreviver. Dessa menina ainda tenho a essância mas pouco mais resta. Tem sido seis anos duros demais, e se cresci muito mais que aquilo que poderia ter imaginado também sofri muito mais que aquilo que cresci. Seis anos depois estou desgastada e exausta, cansada de levar com tudo e com o mundo inteiro sozinha. Frágil e vulnerável como nunca me conheci, acho que acima de tudo é isso. Estes seis anos tem sido a maior prova de fogo que a vida me poderia ter dado e tem testado a minha fragilidade ao limite. Perdi a vida que tinha mas ganhei em humanidade e humildade. Tenho percebido claramente, por força de tudo o que me dói, que aquilo que é verdadeiramente importante na vida são as pessoas que nos tocam o coração. Tudo o resto é completamente desnecessário. Com amor movemos o mundo e temos força para o reconstruir tantas vezes quantas as que forem preciso. Com saudades que doem somos uma sombra de um passado feliz à procura de bocadinhos de esperança no futuro. Eles hão-de voltar e só aí eu poderei começar a fazer as pazes com estas feridas e deixar que elas cicatrizem. Até lá sobreviverei, em nome da réstia de esperança que tenho no futuro e nesse regresso... mas as feridas estão abertas e lembram-me que aquilo que é importante é o amor. Só isso. Para nunca me esquecer da frase que diz que o amor é o que nos salva. Continuarei ferida, profundamente ferida, mas sempre à procura de amor para sossegar a dor.

17
Jul18

Sobre estes dias II - Música

Ju

Há músicas que, não sendo escritas por nós, se nos colam à pele e aos sentimentos de tal maneira que duvidamos disso. Esta música é um espelho do desamor que me vai ocupando os dias e das saudades antecipadas que já tenho da minha irmã... é tudo isso, que já é tanto, e é muito mais. É um hino aos abraços que precisava de receber no outono, verão e primavera e que me faltam todos os dias.

 

"Que mais tem de acontecer no mundo

Para inverter o teu coração pra mim
Que quantidade de lágrimas devo deixar cair
Que Flor tem que nascer
para ganhar o teu amor
 
Por esse amor meu Deus
Eu faço tudo
Declamo os poemas mais lindos do universo
A ver se te convenço
Que a minha alma nasceu para ti
 
Será preciso um milagre
Para que o meu coração se alegre
Juro não vou desistir
Faça chuva faça sol
Porque eu preciso de ti para seguir
 
Quem me dera
Abraçar-te no outono verão e primavera
Quiçá viver além uma quimera
Herdar a sorte e ganhar teu coração
 
Será preciso uma tempestade
Para perceberes que o meu amor é de verdade
Te procuro nos outdoors da cidade, nas luzes dos faróis
Nos meros mortais como nós
O meu amor é puro é tão grande e resistente como embondeiro
Por ti eu vou onde nunca iria
Por ti eu sou o que nunca seria
 
Eu preciso de um milagre
Para que o meu coração se alegre
Juro não vou desistir
Faça chuva faça sol
Porque eu preciso de ti para viver
 
Quem me dera
Abraçar-te no outono verão e primavera
Quiçá viver além uma quimera
Herdar a sorte e ganhar teu coração"
 
Mariza - Quem Me Dera
17
Jul18

Por estes dias

Ju

Eles continuam por cá e não tem sido fácil, acho que já escrevi sobre isto. No meio de tudo custa-me que eles não entendam que eu só quero a presença deles. Custa-me que eles não tenham a noção do que este ano significou para mim ao nível de coisas más. Custa-me que eles dêem tanto valor aos bens e não se lembrem que a única coisa que eu quero é a presença deles. Custa-me que para eles todo o esforço seja justificável. Custa-me que eles estejam tão longe de me saber tão triste e perdida. Custa-me que eles não entendam que eu troco tudo pela presença deles, é só isso que eu quero e é só isso o que um filho pode querer dos pais. Porque a segurança e a confiança que a presença e o amor deles  me transmitem - e que não tenho há seis anos - não tem preço. Porque a capacidade de sonhar e de acreditar que eu tinha antes não tem preço. E por mais que eu o diga eles não conseguem entender isto. E depois de tudo isto, ou a par de tudo isto e acima de tudo isto, ainda tenho o desamor de sempre. Nem eu sei como tenho coração para tanto. Depois de achar que ele ficava por cá, depois de achar que ele ia trabalhar para outra cidade, depois de mil coisas, ele fica a trabalhar aqui. Depois de querer - tanto - que ele vá e se desligue, ele acaba sempre por estar por perto. Ou melhor, acaba sempre por perto mas sem saber o que quer ou sem mudar nada em relação a mim. É quase um presente envenenado, saber que ele está e saber o que poderíamos ter juntos. Já chorei e já me desgastei e afundei tanto neste último ano por causa disto! Já senti que estava a perder os nossos amigos por causa desta história, já senti que não, mas é um equilíbrio dificílimo. E enquanto ele me continuar a aparecer à frente e a tocar o coração isto será mais ou menos assim... e eu não queria nada porque me dói. Dói-me ainda mais porque sei que isto me impede de seguir e me impede de encontrar um amor. E o que eu precisava de alguém que fosse colo e sorriso para mim! É isto que me deixa sem ar: saber que isto me impede de viver a minha história como ela deveria ser vivida. E para juntar a isto, ele lembra-se de me convidar para um projeto - ou uma ideia de projeto de trabalho - com ele. E eu não consegui deixar de ficar super feliz, fiquei para lá de feliz porque é um sonho, mas também sei que provavelmente é só um devaneio dele ... e que se acontecer só me vou sentir ainda mais ligada a ele.. e que isso significa que continuarei sozinha e sem colo eternamente. Eu tolero bem e lido muito bem com o facto de não ter namorado, sempre lidei, mas com ele por perto a falar-me e a propô-me coisas que para mim são sonhos torna-se mil vezes mais difícil. Está tão distante o tempo em que me sentia em paz com o coração e com os sentimentos e eu tenho tantas saudades disso... e depois ele tinha de começar a aproximar-se, ou a dar-me a ideia de que poderia ter sentimentos por mim, sem fazer nada por isso! Só quero que isto passe... mas parece-me quase impossível. Por aqui é isto... por agora.

30
Jun18

Desta semana. Deste ano. Aos meus pais. (27 de Junho)

Ju
Esta semana terminou o ano letivo mais difícil de toda a minha vida. Esta semana traz, também, o regresso deles para férias. Quarta-feira fiz aquele que foi o último teste do meu percurso académico e sabia que tinha de escrever algo antes do regresso deles. Foram dias de emoções misturadas. Poderia ter escrito muito sobre os dias deste ano em que me estendi no chão a chorar, e foram tantos. Poderia ter escrito muito sobre a dimensão do desamparo que senti, sobre a solidão, sobre a sensação de perda do norte. Poderia ter escrito muito sobre a quantidade infinita de vezes em que precisei desesperadamente que eles estivessem presentes - e foram mais que muitas, todos os dias sem excepção. Poderia ter escrito sobre como trocava tudo, mas mesmo tudo, sem sequer pensar, pelo regresso deles. Sobre a quantidade de sextas feiras em que saí da universidade desfeita em lágrimas e encontrei em casa o dobro dos motivos para me sentir ainda mais desfeita. Sobre a angústia que tantas vezes me deixou o peito num nó ou sobre a sensação de vazio (e o vazio foi tantas vezes tanto e tão grande!). Senti-me, mais do que quando levei o choque de os ver a viver do outro lado do oceano, completamente perdida e a perder o sentido da vida - caramba, para mim a família sempre foi O sentido da vida e não consigo. Não consigo que seja diferente. E isto traz-me um peso muito maior e mais difícil de suportar. Precisei deles muito mais do que aquilo que algum texto poderá algum dia mostrar. Mesmo assim, consegui cumprir com aquilo que tinha de fazer na universidade e isso nunca deixará de ser um quase-milagre. Quarta-feira saí daquele teste e tinha, porque tinha de o fazer, de me sentar na igreja. E fui e sentei-me e acho que conseguir passar por cima das dores que eu vivi para cumprir com o que a universidade exigiu foi uma vitória do tamanho do mundo. Eu não concluí um ano de mestrado, eu superei dores de alma e de coração inimagináveis e pelo meio consegui fazer o que tinha de fazer. Tive de fazer um esforço gigantesco para conseguir o que quer que fosse. Talvez por isso nunca me tenha sentido tão desgastada, cansada e arrasada como neste final de ano. Foi um esforço para lá do humano. Nunca terei palavras para aquilo que significou tê-los longe quando tudo me doía. Nunca terei palavras para aquilo que significou tê-los longe quando fui obrigada a perceber que não mando no coração nem nos sentimentos, e que o coração não me poderia ter arranjado um caminho mais difícil para percorrer. Nunca terei palavras para aquilo que significou/significa tê-los longe e ter de lidar com uma história de (des)amor assim, que parece nunca mais se resolver. Nunca terei palavras para aquilo que significou tê-los longe e ter de lidar com um mestrado que foi a maior frustração de sempre, que deu cabo de todas as espectativas que eu tinha - e eu, parva que sou, tinha tantas! - e que de tão mau pareceu surreal. Foi, de uma ponta a outra, um ano a ferro e fogo. Quinta à noite sentei-me e, lágrima atrás de lágrima, tentei escrever-lhes aquilo que espero que este tempo seja e aquilo que espero que o futuro seja. Não falei de dor nem deste ano que passou, falei muito mais sobre aquilo de que preciso. E escrevi isto. Amanhã de manhã eles chegam e eu espero que tudo bata certo no mundo ainda que por um segundo.

 

"Este ano está agora a terminar, vocês estão a chegar e eu não quero que vocês venham sem escrever algumas coisas. Acho que este foi o ano mais difícil das nossas vidas, pelo menos para mim foi, e por isso é que este tempo que vem vai ser tão importante. Estou a precisar, muito e mais do que nunca, do vosso colo. De todo o colo do mundo, daquele que tive numa outra vida e que tanto precisei e preciso. Preciso dos vossos sorrisos, dos vossos abraços e da vossa voz. Preciso disso tudo para ganhar alguma força. Precisamos todos. Não quero mais do que isto: colo, sorrisos e luz. Estou a precisar de luz. Estou a precisar, mais do que nunca, de sossegar o coração e saber que vocês estão perto. Saber que vocês estão cá, aconteça o que acontecer. Saber que tenho uma rede de segurança, um suporte e um apoio. Saber que o mundo até pode acabar mas vocês estão aqui perto. Saber que basta abrir a porta e vocês estão lá. Saber que basta querer e posso me sentar com vocês. Posso falar com vocês. Posso almoçar e jantar com vocês. Posso passear com vocês. Posso ser filha e posso ter o nosso colo. Nem me parece real, e talvez por isso só me consigo lembrar das coisas mais simples e só consigo pedir as coisas mais simples do mundo para estes dias: só vos quero ter perto. Não preciso de mais nada. Só isso: poder ser filha e ter colo. Precisei mais de colo durante este ano do que quando era bebé, e agora espero conseguir ir aí buscar forças. Preciso muito da vossa luz: de toda a luz possível para me lembrar que vale a pena viver e que não posso desistir de mim. De toda a luz para me lembrar que há esperança no futuro e alguma esperança em mim. Este ano precisei desesperadamente de vocês todos os dias e bati no vazio, no desamparo e na solidão e tristeza profundas. Estendi-me a chorar vezes e vezes sem conta, tentei ler, tentei acreditar, tentei continuar, tentei tudo e nada foi suficiente. Por isso só quero o mais simples: colo e luz. Quero voltar a sentir que ainda há um círculo de amor a que pertenço. Quero voltar a sentir que vale a pena continuar. Quero voltar a sentir que há alguém que acredita em mim e no futuro. Quero muito o futuro. Preciso muito do futuro e de falar no futuro. Preciso ainda mais que vocês tenham tudo pronto para voltar. A ideia de voltar foi o único ponto de luz que fui conseguindo ter no meio do desespero, do desamparo e da solidão. Preciso, mais do que tudo, de sentir que não estou sozinha no mundo. Preciso de sentir que há alguém que me ajuda a não desistir dos sonhos e de acreditar no futuro. Precisamos todos disso. Preciso muito que vocês façam tudo o que puderem para que a situação que existe se altere. Preciso muito que vocês se lembrem, e lembrem estas pessoas, que isto é VOSSO e que a situação tem que mudar. Preciso, urgentemente, que vocês façam isso por mim. Preciso que vocês mostrem que não é para continuar igual. Que a injustiça já foi longe demais. Preciso muito que vocês deixem tudo pronto para que o projeto que temos se realize rapidamente. Preciso muito disso. Preciso muito de tudo isso para me agarrar ao futuro e à vida. Foi tudo mau demais. Tem sido tudo mau demais. Por isso é que preciso que vocês comecem a exigir que as coisas por cá mudem. Por isso é que preciso, ainda mais, que o projeto que temos se realize. Espero e preciso que este seja um tempo de paz, de amor, de presença. Que seja um tempo de exigir que mude aquilo que tem de mudar e de planear e sonhar o futuro. É só isso. É tanto e é, ao mesmo tempo, tão simples e natural!"

 

 
24
Jun18

Da vida

Ju

Por aqui a vida rola, muitas vezes mais torta que direita. A cabeça precisa de férias, o coração de colo e a alma de paz. Ele continua a deixar-me completamente à toa com as palavras e os gestos que tem, e eu fraca que sou não consigo fazer nada. Não imaginava eu como isto ia ser difícil - quanto mais tempo até algo acontecer é isto se resolver, meu Deus, quanto mais tempo? Se for para ser que seja, se não for para ser já devia ter passado há muito! As férias estão quase quase, e a chegada deles há-de trazer alguma paz e algum colo. Espero eu que sim (preciso mesmo muito muito que sim). Falta tratar do estágio (Oh vida, e ter disposição e paciência para isso?). Falta o regresso final (sim, o final.. que ainda não é este). Falta tanto... mas eles para a semana estão cá e eu já sou feita de lágrimas só de imaginar o quanto esperei por este momento - o quanto precisei disto e deles todos os dias deste ano letivo e o quanto chorei por eles. Daqui a uma semana eles estão cá e tudo vai ter que bater certo no mundo ainda que por um só segundo.

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