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Manga Lima

Manga Lima

31
Jan17

Ouve-me, Ju (A vida aos 22)

Ju

Sabes, Ju, não és ninguém para te dares ao luxo ou ao direito de não acreditares em finais felizes. Não és ninguém para te votares ao pessimismo ou à descrença ou tão pouco à pouca fé no futuro. Não és ninguém para duvidar da beleza da vida e do amor. Não és ninguém para te permitires incluir nos grupos de pessoas a que tens medo de um dia pertencer. Não és ninguém para achar que não há um ou vários finais felizes à tua espera, seja ao virar da esquina, daqui a um ano ou daqui a dez anos. Não és, tampouco, ninguém para prever o futuro e vaticinar que nada mudará. Não és ninguém para achar que durante a vida inteira que ainda tens por viver não te vais comover muitas vezes de emoção e felicidade. Não te enganes: também não és ninguém para achar que os milagres (pequenos ou grandes) não acontecem - aviso-te já que eles ainda te baterão à porta e, nesse dia, a tua existência ganhará mais outra deliciosa dimensão. Aconteçam ou não, uma ou mais vezes, tens o dever e a obrigação de acordar todos os dias com essa crença. Podes ter medo, é normal. Podes duvidar, desde que isso não te faça perder a força ou a vontade. Podes achar que é mais fácil não criar expectativas, desde que isso não te tire os sonhos. Podes olhar para a vida e perguntar quando certas coisas acontecerão contigo, desde que não te prendas na crença de que tal não te acontecerá. Nem todos os dias são/serão felizes: haverá sempre dias de chuva, nublados e cinzentos, e isso não será um drama. Nesses dias tens de levantar o coração e esperar que a chuva passe. Nem tudo será como queres: também não tens de fazer disso um problema, acredita só que a vida será perfeita naquilo que tiver de ser. Faz-me um favor: lembra-te todos os dias e todas as noites que o segredo é nunca desistires de ti nem de quem te ama e quer bem; que o segredo é sempre lutar pelo que queremos e adormecer na certeza de que fazemos tudo o que está ao nosso alcance pelos nossos sonhos. Aprende a respirar fundo três vezes quando o sol não brilha: relaxa, ouve música, dá um passeio, olha para o céu, olha para o jardim. Vai à igreja, vai ao centro comercial ou vai só conduzir com calma. Lê um poema ou um livro, de Augusto Curry ou de outro escritor que queiras. Lembra-te de fazer uma lista de tudo o que já conquistaste e de tudo aquilo a que resististe. Pensa em todas as pessoas que te amam e sorriem (também) por ti. Pensa em todos os sonhos que a vida (e os teus) projectam em ti. Pensa nos teus primeiros dezoito brilhantes anos de vida: volta a esse círculo de amor em que cresceste sempre que quiseres e precisares e fica com o melhor dele: as raízes, os laços, o amor, os valores e os sonhos. Já fizeste isso na pior altura da tua vida e ultrapassaste o inultrapassável: pensa que é por isso que agora estás a um passo de receber o prémio que a vida te dará pela força que tiveste todos os dias em que só querias chorar a alma. Tudo isto sabes porquê? Porque um dia recebes a notícia que mais queres neste momento, vinda de longe, e tudo vale a pena. Porque um dia recebes um telefonema ou entras pela porta e dizem-te que há um contrato de mudança de vida à tua espera e tudo vale a pena. Porque um dia conheces alguém que te dá outra dimensão à vida e te rouba o coração e a alma para sempre e tudo vale a pena. Porque um dia vês a Amorosa da perspetiva de um abraço e tudo vale a pena. Porque um dia entras pela igreja e provas a ti e ao mundo que o amor verdadeiro é afinal o que nos salva e tudo vale a pena. Porque um dia recebes uma notícia que te muda a alma e a vida para sempre e provas a ti que os milagres acontecem. Porque um dia sais de um hospital com um sonho de vida concretizado e passas a viver na certeza de que os milagres existem e tudo vale a pena. Porque um dia estás sentada no jardim de tua casa com dois (ou mais, sonhar não custa) corações agarrados a ti e o círculo de família reunido e tudo, mas tudo, vale a pena. Porque um dia consegues que o esforço que sempre puseste na tua vida profissional dê os frutos que mereces e tudo vale a pena. Acima de tudo isto porque um dia passarás a vida em revista e tudo o que verás será amor. E porque ao longo da vida sussurrarás muitas vezes para ti própria que valeu a pena - tudo vale a pena se a alma não é pequena, afinal. Sabes uma coisa? É segredo mas vou-te contar: tens em ti tudo o que precisas para que os sonhos aconteçam. Segue a vida e as estrelas guiar-te-ão.

29
Jan17

O amor é um lugar estranho

Ju

A é a tipica menina certinha e direitinha que não parte um prato, a ingénua e sonhadora que gosta pouco de coisas rebeldes e livres. B é o típico menino rebelde e livre que quer viver tudo, quebrar as regras e gosta pouco de coisas certinhas e direitinhas. Sucede que A e B se conhecem e até são amigos. Sucede ainda que A e B até gostam de ir testando os limites um do outro e há um je ne sais quoi entre eles que não é só imaginação. É a velha e gasta história dos pólos opostos que se atraem. O que acontece entre A e B? Pois, como A e B são inteligentes não acontece absolutamente nada. A acabará sempre sem namorado porque é uma xoninhas e nem à lei da bala diz que gosta de B. B continuará a saltitar pela vida e pelas namoradas e nunca encontrará a paz que precisa. E depois? A vida não é uma história da Disney, afinal. Com sorte vão vivendo cada dia e sendo mais ou menos felizes com o caminho que vão traçando. Com sorte, A até encontra alguém e B até encontra alguma paz. Se a vida fosse uma história da Disney, B teria coragem de agarrar em A e dizer e fazer tudo aquilo que, no fundo, quer. Podia ser que A aprendesse a deixar de ser xoninhas e B percebesse que pode ter em alguém tudo o que precisa. A vida não é, feliz ou infelizmente, uma história da Disney... já disse isso, não disse? Pois. [Em Setembro ouvi aquela pergunta e fiquei a pensar. A nem à lei da bala vai admitir algum dia o que sente. Para A, a corda tem de quebrar por B para ela ter as certezas de que precisa. B será sempre um ser incompleto e à procura da paz e tranquilidade que só teria com A. Fim da história.]

29
Jan17

À espreita?

Ju

Lembrei-me disto. À espreita está um grande amor mas guarda segredo? " Havia a solidão da prece no olhar triste / Como se os seus olhos fossem as portas do pranto / Sinal da cruz que persiste, os dedos contra o quebranto / E os búzios que a velha lançava sobre um velho manto / À espreita está um grande amor mas guarda segredo / Vazio tens o teu coração na ponta do medo / Vê como os búzios caíram virados p'ra norte / Pois eu vou mexer o destino, vou mudar-te a sorte (bis) / Havia um desespero intenso na sua voz / O quarto cheirava a incenso, mais uns quantos pós / A velha agitava o lenço, dobrou-o, deu-lhe 2 nós / E o seu pai de santo falou usando-lhe a voz / À espreita está um grande amor mas guarda segredo / Vazio tens o teu coração na ponta do medo / Vê como os búzios caíram virados p'ra norte / Pois eu vou mexer o destino, vou mudar-te a sorte (bis) / À espreita está um grande amor mas guarda segredo / Vazio tens o teu coração na ponta do medo / Vê como os búzios caíram virados p'ra norte / Pois eu vou mexer o destino, vou mudar-te a sorte! " Ana Moura - Búzios. Que mexa o destino, que mude a sorte

28
Jan17

(Pequenos) milagres

Ju

A vida é, na essência, bonita porque não sabemos o que poderá acontecer e podem acontecer coisas muito boas: as ditas surpresas. De um minuto para o outro podemos receber um telefonema ou uma mensagem com a notícia que há muito queríamos e esperávamos. Podemos estar num sítio qualquer e, de repente, ouvir de alguém o que sempre quisemos ouvir. Podemos deitar-nos a achar que a vida vai ser sempre igual e sermos acordados com algo que muda tudo para melhor. É quando isto acontece que renovamos a fé na vida, é por isto que tantas vezes aguentamos o insuportável até que aquilo que mais queremos nos seja dito. É por isto, sobretudo, que a vida (e tudo) vale a pena. É a isto que podemos chamar de pequenos milagres. Todos teremos os nossos, ainda que inconfessáveis e apenas na imaginação. Escrevi isto porque ando a sentir, muito mais que o que queria, que a vida é sempre igual. [Isto aconteceu-me uma vez, no fim de uma manhã de Julho de há quase cinco anos, mas foi exatamente ao contrário do que descrevi: foi para ouvir aquilo que nunca quis e que mais temia. Não me esqueço, não consigo: ir naquela rua (não gosto daquela cidade e cada vez gosto menos), a andar, os semáforos, a linha do elétrico marcada no chão e a notícia ser-me dada assim, sem qualquer anestesia. Lembro-me do "não" que foi a primeira coisa que disse e lembro-me de saber imediatamente que nada mais seria igual. Houve uma vida inteira que terminou ali, naquele momento. Não morremos só quando o coração pára, e a nossa vida como a conhecíamos acabou ali.]

28
Jan17

Acordei assim

Ju

Acordar. Angústia. Tristeza. Medo. Sonho com o que não quero e com quem não quero, o coração a tocar sempre uma música diferente da razão, raios! Penso demais. Eles vêm cá. Quero que venham e não quero que voltem. Terão que voltar, mais uma vez. Até não sei quando. Não controlo o coração, em assunto nenhum. Tenho medo disso, isso dói-me. Quero-os cá. Quero o amor cá. Não tenho e não sei quando terei. Já disse que dói? Dói, pronto. Até um dia qualquer: até eles voltarem, até eu encontrar o amor e o colo que tanto espero.

25
Jan17

(Des)arrumações

Ju

Gostava muito que tivesse sido a última vez que arrumo. Gostava ainda mais de não arrumar mas rumar, enfim. E é isto. [Gostava ainda mais de voltar a entrar por aquela porta para assinar o contrato de mudança de vida. Merecido. Assim será se a vida o quiser]

25
Jan17

Enquanto houver estrada para andar

Ju

Agosto estava a terminar e com ele terminava também uma viagem que, no fundo, nunca quis fazer. Foi na sala de espera de um aeroporto a mais de cinco mil quilómetros de casa e à espera do embarque para regressar que escrevi isto. A viagem teve mais peripécias que a encomenda e nenhuma foi boa, ainda eu não sabia do atraso do vôo. Estava cansada, triste e um tanto desanimada e descrente, numa espécie de alegria agridoce por voltar. Ouvi a canção na minha cabeça e escrevi assim: "Enquanto houver estrada para andar a gente vai continuar. Enquanto houver estrada para andar a gente vai acreditar, a gente vai esperar, a gente vai respirar

 

e a gente vai tentar. Enquanto houver estrada para andar a gente vai viver, a gente vai correr, a gente vai errar, a gente vai perdoar. Enquanto houver estrada para andar a gente vai sair, a gente vai sorrir, a gente vai acreditar, a gente vai tentar e vai sempre, mas sempre, continuar. Mesmo que o tempo doa, mesmo que a vida magoe, mesmo que as pessoas também doam. Mesmo que a alma e a vida peçam paz, mesmo que o coração se parta em mil bocados e os olhos queiram lavar a alma com lágrimas. Enquanto houver estrada para andar a gente vai visitar, vai viajar, vai esperar, vai suportar, vai aguentar e vai sempre acreditar para continuar. A vida vista da zona das partidas do aeroporto de cá é também isto: coração cansado, olhos que querem chorar e a certeza de que a gente vai continuar. Porque enquanto houver estrada para andar haverá sempre um destino a alcançar. Por mais que demore ou por mais que custe. Ter o sal e o sol à espera ajuda mas não é suficiente. Necessário é o regresso final. Até lá, coração à espera e a certeza de que a gente vai continuar." Passou quase meio ano. Não tenho nada a acrescentar. Para já (quero).

24
Jan17

Parabéns!

Ju

Parabéns, pai! Parabéns, D! Podia escrever tanto que nem sei onde começar. Posso começar pelo início e dizer que tenho uma sorte do tamanho do mundo por ter o pai que tenho. Um pai que é pai no verdadeiro sentido da palavra, com a maior paciência, alegria e inteligência do mundo. Um pai que sabe ouvir, conversar e aconselhar como ninguém e que me foi sempre orientando pelo caminho da vida. Um pai com quem as conversas intermináveis são as melhores do mundo e as brincadeiras também. É talvez por isso que a distância me custa tanto. Depois há a D, aquela bebé que eu segurei pela primeira vez naquele fim de dia de Janeiro de há dez anos. Não poderia, nesse dia, imaginar que ela iria crescer tão distante daquilo que somos e das nossa raízes. Não poderia imaginar que ela estaria sempre tão longe daquilo que já fomos e que foi tão bom. Poderia tudo ser diferente, sê-lo-a no futuro e será muito melhor. Podíamos ter acordado na mesma casa e ter sorrido entre beijos e abraços de parabéns. Poderíamos ter almoçado juntos entre luz, sol e sorrisos e poderíamos ter ido a algum sítio bonito e especial passear. Depois faríamos um jantar de família para celebrar, entre calor e sorrisos, e o coração estaria cheio. Não aconteceu, como não tem acontecido nos últimos tempos, e não consigo deixar de perder um bocadinho de fé e algria por isso: isso é triste e não há como contornar a tristeza. Ainda assim temos de continuar a sorrir e a sonhar. Haverá um futuro onde, com certeza, celebraremos com dias muito parecidos àquele que descrevi. Haverá, com certeza, também um futuro onde falaremos de raízes e de família à D. E haverá também um futuro onde seremos nós a ensinar ao(s) filho(s) que irei ter o que isso significa verdadeiramente. Tenho, aliás, de dizer que quero muito que os filhos que tiver saibam a sorte incrível que tem por ter um avô tão especial. E aí daremos um passeio todos juntos, seja no campo ou na praia, e sei que celebraremos e estaremos de coração cheio.

23
Jan17

(Per)Curso

Ju

Sempre fui a menina fascinada por livros, canetas, lápis e cadernos. Sempre gostei, também, de conversar muito e ouvir conversas. Sempre gostei da escola e sempre quis dar o melhor de mim: não que alguém me obrigasse ou que eu conscientemente achasse que tinha de ser boa aluna ou a melhor. Simplesmente nunca consegui fazer as coisas sem a certeza de que estou a dar o meu melhor, de que ponho tudo de mim naquilo que faço. Lembrei-me agora, aliás, do poema de Pessoa "Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes. / Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive." Resume muito daquilo que penso que sou. Primeiro veio a escolinha primária: aprender a ler, escrever e contar. Ri, cresci, tive uma excelente professora, aprendi e fui feliz. Ter um pai com a maior paciência do mundo e toda a disponibilidade para ensinar, ajudar e acompanhar também foi importantíssimo. Não me esqueço de tudo o que ele fez para me acalmar a frustração de não conseguir fazer logo as contas de dividir de forma correta e do quadro branco que ele comprou. Depois veio a escola maior: várias disciplinas e professores e novos colegas. Gostei mais de umas coisas do que de outras e tive bons professores no geral. Cresci, aprendi, deixei grande parte da infância/adolescência naquela escola e posso dizer, no geral, que fui feliz. Fiquei mais contente com umas notas do que com outras e tive, sempre, a paciência e disponibilidade do meu pai quando precisei: aprendi a estudar com ele (os esquemas que ele fazia!) e fui, depois, ganhando autonomia até estudar sozinha. Chegou o nono ano (fui tão feliz no nono ano!) e com ele a necessidade de escolher um curso: sempre soube que não queria físicas, químicas nem laboratórios. Gostava de matemática e tinha uma paixão por português. Sabia, à partida, que iria acabar nas ciências humanas ou sociais e acabei, assim, no curso de ciências sócio-económicas. A curiosidade em saber o que era, afinal, a economia ajudou e lá fui. Mudei de escola e fui imensamente feliz no secundário. Tive bons professores e uma turma espetacular. A nível familiar também foi uma fase boa e foram três anos que voaram (a vontade que tinha de chegar à universidade e a pressa pelo futuro ajudaram). Não me arrependi um segundo do curso que escolhi e diverti-me mesmo entre o estudo da contabilidade nacional, dos rios, dos Maias ou de Pessoa. Achei, logo no nono ano e até ao décimo primeiro, que ia escolher gestão ou economia e acabar numa empresa. No décimo segundo ano fui-me zangando com a matemática na mesma proporção com que me apaixonava por portugês. Ora, isto fez-me repensar o futuro e perceber que se calhar ia ser mais feliz entre livros do que entre tabelas e contas. Ainda me lembro das conversas com o meu pai e de ouvir dele um "Podes sempre escolher Direito". Fui resolvendo a zanga com a matemática com a melhor explicadora do mundo mas o coração andou ali a balançar. Ainda faltavam uns meses e o entusiasmo e alegria que sentia por estar quase a chegar à universidade foram únicos: posso dizer que me senti invencível, completa, realizada, expectante e com a cabeça a rebentar de sonhos e planos. Decidi finalmente que o (per)curso seria a Direito (ou nem tanto, mas isso não sabia eu) e naquela tarde de verão, sentada no sofá com o site da DGES aberto, foi com o coração que ordenei as seis opções possíveis. A razão esteve lá sempre, mas não esteve sozinha. Seria o que a vida quisesse e permitisse e o futuro era mesmo ao virar da esquina. Lembro-me de estar com a A. e de lhe dizer que seria o que o que a vida (e Deus) quisesse. Aquele décimo segundo ano foi tão especial que nem a perda das nossas duas estrelas me fez abrandar a sede de futuro e os planos. Este ano completam-se cinco anos desde aquela tarde de Julho em que escrevi (e decidi) uma grande parte do meu futuro. Aos dezassete (quase dezoito) era feita de futuro, sonhos e planos. Não imaginava eu que nesse mesmo Julho a vida daria uma volta, e uma volta tão grande que nada voltou ainda ao sítio. Passando esse dia do fim de Julho que não quero que me fique na história, a verdade é que esse ano letivo seguinte foi tudo o que não poderia ter sequer previsto em sonhos (ou pesadelos). A distância, a dor, a frustração e a perda de tudo falaram por si e pelo meio perdi-me de mim e da vida. Ao fim de uns meses dei por mim e não sabia quem era ou que futuro queria. A universidade chegou finalmente e transformou-se num ponto fraco, numa dor que nunca imaginei e que me fez duvidar de tudo. Foi um choque a todos os níveis e o choque tinha começado na família e materializava-se na universidade. Duvidei de mim, da vida, do curso, das minhas capacidades, do futuro, do amor e da família. Senti-me como uma espécie de animal pequeno, ferido e abandonado. Chorei todo o primeiro semestre, quis mudar de vida e de curso, senti-me perdida e posso dizer que me doeu viver todos os dias daquele semestre. Pelo meio, nunca desisti de me levantar da cama, ir às aulas, tirar apontamentos e fazer testes. Nunca me esquecerei daqueles primeiros dois testes e de como me sentia. Ainda hoje, à distância de quatro anos, há memórias que tenho de locais e sensações que me deixam admirada com o sofrimento que suportei. Encontrei a melhor psicóloga do mundo (a sorte que eu tenho!) e nunca desisti: acho, aliás, que foi esse o segredo. Fiquei completamente estupefacta quando comecei a ver os resultados dos testes que fui fazendo. Mesmo estando na pior fase da vida, sem conseguir estruturar um texto e sentindo-me incapaz, fui tendo bons resultados e isso foi um motor que me impulsionou e fez continuar. O tempo foi passando e, pouco a pouco como uma semente que floresce, as dúvidas foram-se dissipando e a tranquilidade foi vindo. Percebi que aquilo que começa torto pode ficar, afinal, direito e percebi também que estava a gostar seriamente daquilo e queria continuar. A partir daí o (per)curso foi-se fazendo a ele próprio: conheci pessoas espetaculares que me fizeram sentir parte da universidade, cresci muito (tanto, mas tanto) a todos os níveis, aprendi muito mais que o que consigo explicar ou escrever, estudei sempre até à exaustão todos os dias, manhãs, tardes e noites, ganhei uma autonomia que ainda me surpreende, ganhei uma auto-confianca e auto-estima que também me surpreendem (e fazem tão bem!), sorri, gargalhei, tive centenas ou milhares de horas de aulas, preenchi centenas ou milhares de páginas e cadernos, estive numa associação e isso foi das maiores (boas) surpresas e nunca, mas nunca, deixei de me surpreender pelos resultados que tenho. Isto é bom porque a minha exigência de perfeição é tanta que acabo sempre a achar que fiz uma valente porcaria e, afinal, até nem foi assim tão mau. Exigir sempre o melhor de nós e querer a perfeição não é bom nem mau: tem vantagens e desvantagens e dá uma grande trabalheira e ansiedade. É como pensar demais: às vezes dói. Não me arrependo, nunca, do (per)curso que escolhi e que tenho feito. Estarei sempre grata à vida e à família por ter oportunidade de aprender tanto e crescer ainda mais, como profissional e como pessoa. Não tem sido um percurso fácil, muito menos tem sido a direito ou em linha reta. Na verdade também nunca quis um caminho fácil, queria um curso que me desafiasse e acertei na mouche. Passaram-se quase quatro anos, ainda não acabou e já tenho saudades. Tenho, todos os dias, a certeza de que há um anjo que me guia por este (per)curso: relembrando o início e aquela tarde em que me ajoelhei na igreja não posso ter outra explicação. É isto que me dá a certeza de que se há um Jesus ele será, com certeza, bom. Não conheço o anjo que me guia, mas sei que ele é a certeza de que há coisas que têm mesmo que acontecer. Ou de que, pelo menos, a vida é às vezes perfeita naquilo que tem de ser. Não sabendo o futuro, e seja ele a direito ou não, só posso estar infinitamente grata à vida, à família e a esse anjo por este percurso. [Tudo porque me lembrei que se passaram quase cinco anos desde aquela tarde de Julho em que o futuro era já ali]

21
Jan17

Até 31 de Dezembro

Ju

Estou sentada, à lareira, na última mesa do café. Ainda é Janeiro, o ano mal começou, mas não posso deixar de pensar em tudo o que quero que aconteça até ao último dia. Já não faço questão, como há quatro anos, de me voltar a sentar nesta mesa em frente ao vidro no dia 31 de Dezembro para fazer um resumo do ano. Só faço (mesmo) questão de voltar a ter o círculo de família reunido nessa última tarde do ano (e em todas as outras). Ainda é Janeiro: sonhar não custa, tentar ainda menos, verbalizar só faz bem e sonhar alto e acordada ainda é melhor. Não me interessa muito o local onde farei esse resumo no último dia do ano, interessa-me saber o que estará no coração nessa revista do ano que passou. Seja onde for, quero (muito, tanto) que o coração esteja preenchido de amor e família. Se há ensinamento que levo para a vida deste últimos anos é que, muito mais que o local, os bens ou o dinheiro interessam as pessoas e as emoções que trazemos no coração. Pode ser nesta mesma mesa novamente à lareira, em nossa casa ou na da tia: quero-nos todos juntos a sorrir. Quero passar o ano em revista por entre todos os sorrisos e comover-me sem qualquer tipo de constrangimento. Quero saber e sentir que há pontos finais felizes. Quero saber e sentir que o esforço académico valeu a pena. Quero saber e sentir que encerrei a primeira etapa de um caminho profissional com chave de ouro. Quero saber e sentir que inicie a outra parte do caminho de forma tranquila, feliz e confiante. Quero saber e sentir, acima de tudo, que aproveitei a família o máximo que pude. Quero saber e sentir que houve um anjo que Deus me colocou no caminho sob a forma de amor para partilhar a vida e a alma. Quero saber e sentir que sempre chegamos onde nos esperam. Quero saber e sentir que foi o ano das boas surpresas: quero (muito) ser surpreendida pela vida e pelo amor. Quero que seja o início de um novo ciclo: um ciclo de paz, amor e sol. Quero que seja um ponto de mudança e viragem em todos os aspetos. Até lá a estrada é longa, o caminho não será sempre em linha reta e haverá sempre a vida e as suas (boas) surpresas. Até lá há todo um conjuntos de acontecimentos e nem todos serão os mais felizes, mas o segredo está em acreditar que os felizes superarão tudo o resto. Até lá o sol ainda dará toda uma volta em torno da terra, as estações acompanharão o ritmo da vida e haverá dias bons e menos bons. Tenho pressa, bem sei, tenho até fome de que tudo aconteça. É natural, é a vida vista de um início de ano numa fase em quero que tudo aconteça e mude. É muito possível até que (quase) nada aconteça, mas enquanto houver sonho tem de haver esperança. Se nada acontecer e o último dia do ano não for, afinal, diferente dos últimos resta-me a convicção de que o sol continuará a nascer todos os dias e, com ele, o milagre da vida. Até lá tenho de me levantar todos os dias da cama com a firme crença de que essa revista do ano se resumirá a amor e me comoverá, enfim.

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