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Manga Lima

Manga Lima

27
Ago18

Agosto quase no fim

Manga Meia-Loira

Estamos quase no fim deste mês e eu sabia, sempre soube, que ia ser um mês que me ia doer na alma. É um mês sempre demasiado grande (e demasiado colorido) quando não estamos bem e quando o coração está ferido. É um mês sempre difícil. Há seis anos que não tinha um Agosto tão doloroso. Esse foi o primeiro em que soube que a minha vida ia mudar e perdi o chão. Depois, há cinco anos, também me doeu tudo numa aprendizagem daquilo que era viver sem eles. Nos últimos anos a dor foi amenizando, talvez com o hábito, e os Agostos foram sendo difíceis mas ultrapassáveis. O Agosto do ano passado foi, sem eu o poder imaginar na altura, um marco. Foi o mês em que ele me fez bater de frente naquilo que sentia por ele quando, naquela sexta feira à noite, usou a palavra coração no sítio mais bonito da minha infância. Passou um ano e eu sabia que também por isso este Agosto me ia deixar afundada em sentimentos e mágoas. Ele falou em coração e depois tudo se passou como se nada nunca tivesse acontecido e a vida seguiu e segue. Ele pode não se lembrar, e eu também não queria, mas a verdade é que eu estive lá e não sonhei. Estive lá e ouvi. E isso deixou-me de coração desfeito durante (quase) todos os dias deste último ano. Não sei quanto mais tempo ele me vai conseguir deixar neste estado, e não sei quanto mais tempo isto vai durar ou quando ou como vai acabar. Estou constantemente exausta e desgastada por isto mas infelizmente isso não me permite deixar de ter sentimentos por ele. Ele tinha de ser a última pessoa por quem eu algum dia teria sentimentos. Aquela minha praia de infância tinha de ser o último sítio onde esta história teria de ficar marcada. Aconteceu e eu, humana que sou (porquê?), apaixonei-me sem saber e sem me dar conta nunca. Claro que tinha de ser uma história assim. Só quero, mais do que qualquer coisa na vida, que isto passe. E (espero!) o que tiver de ser será. 

08
Ago18

A mesa de pedra

Manga Meia-Loira

Hoje voltei a entrar na Frondosa. Estava de coração pesado (quão difícil e interminável consegue ser Agosto quando nos falta a família, o amor é dor e tudo nos magoa?) e entrei. Fui à parte de cima para voltar a pisar a terra que tem nela todos os nossos sonhos e um futuro à espera de acontecer. Era fim de tarde e a mistura entre o sol e a sombra à volta da nossa casa velha de pedra, que em breve há-de ser reconstruída e materializará sonhos, era demasiado bonita. Antes de entrar e enquanto estive por lá a mistura de emoções fez-me largar uma série de lágrimas: a vossa ausência a doer-me, numa dor multiplicada por estarmos num mês que devia ser dos mais bonitos e especiais para nós; a quantidade de sonhos à espera de acontecer que aquilo significa; a vontade gigante e inexplicável de que tudo aquile fique (re)construído rapidamente e esteja pronto; o medo do tamanho do mundo de que algo possa correr mal ou demorar; a minha necessidade profunda de vos ter por perto, sempre; a certeza de que o nosso e vosso lugar é aquele e era lá que vocês já deviam estar; a vontade profunda, intensa e indizível que tenho de vender o café e o medo de que possa não acontecer; a vontade de vender a casa de baixo; a vontade de mudar tudo e tão pouco depender de mim e das minhas ações; o (des)amor que tenho por ele e as dúvidas, angústias, incertezas, tristezas, dúvidas, esperanças e desesperanças que isso me traz; os sentimentos que ele fez nascer e crescer em mim sem, talvez, ter grande ideia disso e a dor que isso me provoca, ou a dor que me provoca não o ter; eu ali e ele sempre perto demais e longe ao mesmo tempo, eu ali e a sensação constante que tenho de estar nos braços dele sem nunca ter estado nos braços dele; eu ali e ele com um lugar cravado na minha cabeça e, por isso, no coração (ou no coração e, por isso, na cabeça); Andei à volta da casa, pisei e repisei a terra, subi as escadas, fui pelo terreno e todos aqueles sentimentos tornaram aquele momento intenso. Era eu e a ausência deles a moer-me o coração, era eu e a esperança que aquelas paredes à espera de serem reconstruídas transmitem, era eu e a vontade profunda e intensa de que eles voltem, era eu e a necessidade de vender o café e a vontade de vender a casa, era eu e o medo que me corta a respiração de que aquele projeto-sonho não se materialize, era eu e o medo que me deixa sem chão de que o café não seja vendido. Era eu e, sobretudo, o meu coração às voltas, por este (des)amor que insiste em não desaparecer. O meu coração tonto e a cabeça às voltas sempre a pensar nele... e na (im)possibilidade de percorrermos um dia aquele chão e aquele caminho de mãos dadas e corações afinal ligados... na (im)possibilidade de um dia lhe dizer que, quando o outro dia o projetista me disse que um dia podia casar ali, sorri e só me consegui lembrar dele (a acontecer, acho que só seria capaz de verbalizar isto depois de já termos as alianças nos dedos). Depois fui para a parte de baixo e andei até ir para a mesa de pedra. Sentei-me na mesa de pedra e percebi muita coisa. Percebi acima de tudo que aquela casa de baixo devia ser vendida e que ela e tudo o que de incrível ali existe perdeu o encanto à custa destes anos de ausência deles. Percebi que aquilo que supostamente será um "paraíso" para qualquer pessoa tem sido o lugar que me marca a ausência deles. Tem sido o lugar onde a vida (e a minha vida) devia acontecer e não, é apenas o lugar onde um dia houve vida, amor e família. Percebi que aquilo que o meu pai sonhou quando pensou a casa perdeu todo e qualquer encanto. Perdeu valor e perdeu tudo. Foi a casa onde um dia fomos vida, família e amor. Tem sido, nestes últimos seis anos, a casa que marca a falta de vida e de família, numa lembrança dolorosa. Eles voltarão e, dependendo de mim, aquela casa terá outras vidas nas mãos de outras pessoas. Posso estar errada ou não, mas aquele projeto de casa falhou... falhou redondamente quando ontem me sentei na mesa de pedra e as lágrimas me mostraram que não foi para chorar a ausência deles que aquela pedra foi lá colocada; que o meu pai deve ter mandado colocar lá aquela mesa de pedra para partilhar refeições e sorrisos em família, não para que uma Ju chegasse aos quase 24 anos e se deitasse lá em lágrimas e de coração desfeito. A casa poderá ou não continuar a ser nossa, mas merecerá de certeza quem a encha de vida, amor e sorrisos. É uma casa com demasiada luz para que ninguém viva lá. Poderá continuar a ser nossa, e ver-me um dia a subir as escadas com um filho meu e de sorriso-milagre no rosto. Poderá não ser nossa, e eu subirei outras escadas lá perto com o filho e o sorriso. No meio de tantas nuvens só posso ter uma certeza: temos de mudar de casa e (re)começar, temos de mudar de casa e (re)aprender a ser família, temos de mudar de casa e (re)ordenar as nossas vidas. Eu não pertenço à casa onde estou, por mais amor que haja lá, e eles não pertencem àquele país nem àquela casa. É hora de (re)fazer as malas e voltarmos ao nosso círculo de luz!

03
Ago18

O estado das coisas

Manga Meia-Loira

Eles foram embora terça e eu confirmei mais uma vez que nunca nenhum filho se deveria ter de despedir dos pais e da irmã, largando-os no aeroporto sem data para os voltar a ver. Ficou-me a esperança e a crença de que não o terei de voltar a fazer... o desejo profundo de que aquela tenha sido mesmo a última vez que um aeroporto nos viu despedir. A mim, resta-me torcer para que o regresso definitivo deles aconteça o mais rapidamente possível e resta-me fazer tudo o que puder nesse sentido. Quanto ao (des)amor já não sei o que dizer. Penso, repenso, vejo, revejo, ponho hipóteses, zango-me, choro, sonho, acredito, sorrio, acredito e esgoto-me. Acima de tudo, esgoto tudo nesta mistura de sentimentos por ele e nesta bipolaridade de ter esperança e ter de a enterrar toda e voltar a ter esperança. É uma estrada em círculos que me desfaz o coração e, o mais triste de tudo, que me impede de acreditar no amor e me deixa cada vez mais marcada. O que mais me dói é isso: saber que fico tão ferida que será ainda mais difícil algum dia, alguém, conseguir conquistar este coração e fazer-me sorrir. Resta-me deixar a vida (e o verão) correr e ir acreditando que eles voltarão e que o amor um dia será um lugar feliz com quem tiver de ser. Por agora é apenas isto... continuar a sobreviver por entre as pancadas da vida pedindo tréguas.

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