O estado das coisas
Eles foram embora terça e eu confirmei mais uma vez que nunca nenhum filho se deveria ter de despedir dos pais e da irmã, largando-os no aeroporto sem data para os voltar a ver. Ficou-me a esperança e a crença de que não o terei de voltar a fazer... o desejo profundo de que aquela tenha sido mesmo a última vez que um aeroporto nos viu despedir. A mim, resta-me torcer para que o regresso definitivo deles aconteça o mais rapidamente possível e resta-me fazer tudo o que puder nesse sentido. Quanto ao (des)amor já não sei o que dizer. Penso, repenso, vejo, revejo, ponho hipóteses, zango-me, choro, sonho, acredito, sorrio, acredito e esgoto-me. Acima de tudo, esgoto tudo nesta mistura de sentimentos por ele e nesta bipolaridade de ter esperança e ter de a enterrar toda e voltar a ter esperança. É uma estrada em círculos que me desfaz o coração e, o mais triste de tudo, que me impede de acreditar no amor e me deixa cada vez mais marcada. O que mais me dói é isso: saber que fico tão ferida que será ainda mais difícil algum dia, alguém, conseguir conquistar este coração e fazer-me sorrir. Resta-me deixar a vida (e o verão) correr e ir acreditando que eles voltarão e que o amor um dia será um lugar feliz com quem tiver de ser. Por agora é apenas isto... continuar a sobreviver por entre as pancadas da vida pedindo tréguas.
