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Manga Lima

Manga Lima

28
Jul21

Voltar onde fomos (somos) felizes

Manga Meia-Loira

Hoje fui, por circunstâncias várias, almoçar e (re)visitar a minha universidade e a minha escola. Foi bom, muito bom. Revi pessoas, locais, cheiros, comidas, paisagens, cores, sítios, ruas e edifícios. Falei muito, sorri muito, tive saudades - muitas saudades - e enchi o coração. Fui tão feliz ali, naquele lugar. Fui tão feliz naquele espaço e no tempo que passei lá! Por um lado, senti nostalgia porque aquele espaço e o que vivi lá foi muito construtivo, enriquecedor e bonito. Foi um lugar onde sonhei, trabalhei e conquistei e isso marca-nos e fica-nos guardado para sempre no lugar das memórias mais especiais. Disse nostalgia porque a verdade é que já passou algum tempo e sinto que não consegui mais voltar a sonhar e a conquistar daquela forma. Isso deixa-me um bocadinho triste porque é como se não fosse possível voltar a sonhar tão alto. Por outro lado senti-me feliz e de coração cheio, muito feliz. Porque quando sentimos saudades isso só significa que aquilo que tivemos e vivemos foi muito bonito e especial, e aí só posso estar grata. Estarei sempre muito grata, aliás, por tudo o que aquele lugar significou para mim e por tudo o que vivi lá. Balanço feito, foi bom. Muito bom. Só posso sentir-me grata, feliz e de coração cheio por ter tido o privilégio de sonhar tanto e conquistar ainda mais. As saudades também estão cá, mas são, na verdade, o preço a pagar por ter vivido tanto de bom. E sempre que elas aumentarem voltarei. Aquela será sempre a minha casa mãe académica, a minha alma mater, e será sempre uma segunda casa. Sempre. Prometo voltar. Sempre.

25
Jul21

Barcos e saudades

Manga Meia-Loira

Hoje foi domingo, peguei no carro e não soube para onde vão os barcos que construímos quando estamos tristes e a vida dói. Hoje foi domingo e, ao fim da tarde, naquela estrada, as saudades foram reais e doeram-me. Naqueles instantes percebi que, se tudo decorrer normalmente, faltará pelo menos um ano para que eles voltem. Então fiquei com o coração esfrangalhado e a alma triste e zangada porque não falta só mais um ano. Falta um aniversário meu em que não vou estar aqui com eles. Falta um reínicio de ano em setembro em que eles não vão estar aqui. Falta um aniversário da minha mãe em que ela não vai estar aqui. Falta um natal em que não vamos ser nós no nosso lugar. Falta uma passagem de ano que não vamos partilhar. Falta um aniversário do meu pai em que não vou estar com ele. Falta um aniversário dela em que não a vou ter perto. Falta um carnaval. Falta uma páscoa que não vamos partilhar. Falta uma primavera que não vai ser nossa. Faltam 365 almoços e jantares. Faltam 52 semanas. Faltam 52 fins-de-semana. Faltam 365 dias em que continuarei a ser eu, e só eu, a levar sozinha com o mundo às costas. Eu sem eles. Eu sem o amor deles ao lado. Eu sem esse amor. Vi a estrada a passar e a paisagem. Pensei em mim. Pensei no caminho que percorri até aqui. Pensei no trabalho que não me faz sentir realizada. Pensei no amor que não chega. Pensei neles que não voltam. Pensei no imóvel que não vendemos ainda. Pensei no plano deles para regressar. Pensei nisso tudo e senti-me a viver dentro de um nó. Com a sensação de que tudo é maior que eu. Com a sensação de que sou impotente perante tantos nós por resolver. Amanhã é dia 26. Amanhã completam-se nove anos desde o dia em que eles me disseram que iam viver para o outro lado do oceano. Não sei o que dizer perante isso. Só me ocorre que 9 anos são uma vida e eu tenho muitas saudades - mas mesmo muitas - daquela miúda de 17 anos cheia de vida, esperança e sonhos.Há 8 anos e 364 dias eu era infinitamente mais ingénua, feliz, inocente e sonhadora. Cresci, aprendi mas se calhar já parávamos a contagem por aqui. Acho que a missão e a lição já ficaram registadas.

22
Jul21

"Falhamos a vida, menino?"

Manga Meia-Loira

Não sei bem porquê, talvez devido a um conjunto de fatores, mas tenho pensado muito nesta coisa de "falharmos a vida". Ou, pelo menos, de falharmos a vida que sonhamos, ou que teríamos imaginado. Não sei se por acaso ou não, mas ontem li um texto onde a autora ia buscar esta passagem aos Maias, de Eça de Queiroz, e não me consegui mais descolar disto.

Somos humanos e, talvez por isso, sonhamos e imaginamos. Sonhamos com uma família feita de amor e boas bases, sonhamos com um curso onde sejamos felizes, sonhamos com uma carreira sólida e que nos faça sentir realizados e felizes, sonhamos com um amor bonito que nos ame e nos faça felizes, sonhamos com um bom casamento, sonhamos com promoções e ascenções na carreira, sonhamos com filhos super bonitos, inteligentes e quase perfeitos, sonhamos com uma casa enorme com piscina, sonhamos com amigos sempre presentes e amorosos. Podemos sonhar com milhentas outras coisas. Podemos até planear, trabalhar e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para as conseguir. Mas parece-me - com o passar dos anos, com o crescimento e com aquilo que tem sido a minha própria vida - que falharemos sempre em certa parte. Podemos conseguir muito daquilo que sonhamos, podemos conseguir só uma pequenina parte, mas falharemos sempre algo. Acho que faz parte. Acho que é a isso que se pode chamar "dores de crescimento". Talvez seja exatamente quando percebemos que não teremos (ou dificilmente teremos) a vida que sonhamos que podemos dizer que crescemos. Se isso é falhar a vida? Diria que não. Há partes que simplesmente não dependem de nós. Conseguir ter um bom casamento, por exemplo, não depende de nós. Muitas outras coisas não dependem de nós. E então crescemos... crescemos invariavelmente e irremediavelmente quando percebemos - e sabemos - que, se calhar, não vamos alcançar a lista toda do que queríamos. Possivelmente podemos não nos sentir realizados na carreira. Podemos não conseguir encontrar um amor feliz. Podemos não ter aquela base familiar que tanto gostaríamos. Mil outras coisas. Falhamos a vida? Não sei mas diria que não. Falhamos sempre em certa parte? Acho que sim. 

“- Falhamos a vida, menino!
- Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: «vou ser assim, porque a beleza está em ser assim». E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. Ás vezes melhor, mas sempre diferente.” - Os Maias, Eça de Queiros

19
Jul21

Este julho que (não) passa

Manga Meia-Loira

Passei um bom fim-de-semana. Aniversário de amiga, calor, sol, piscina, amigos, comida, praia e mais calor e comida e por aí fora. Foi bom. Mas ontem à noite tive assim uma queda no estado de espírito demasiado acentuada e hoje continuamos assim. Sinto-me cansada. Farta de esperar que eles voltem. Farta de esperar que o negócio se venda finalmente. A viver numa indefinição, sem perceber bem o que quero, o que devo fazer, o que posso fazer. Sem saber bem por onde deve ser o caminho. Depois... depois tenho de reconhecer que, se eles estivessem cá, a minha vida e a minha história seriam muito diferentes. Muito diferentes mesmo. Poderia estar de malas feitas para Lisboa e para outro tipo de sonho. Poderia estar noutra cidade. Poderia estar aqui. Poderia estar noutro escritório. Poderia estar noutra empresa. Não sei nem nunca saberei, mas hoje fui confrontada com isso durante uma conversa e de repente fiquei triste. Muito. Percebi que até poderia estar no mesmo lugar, mas a minha força e o meu percurso teriam sido diferentes. Sem tanta luta, batalha, tempestade e adversidades. Muito mais tranquilo, pacífico, seguro, orientado e luminoso. Estou cansada. Cansada de ser eu em tudo, eu para tudo, eu (quase) contra tudo. Às vezes é assim. Hoje é assim. Uma pessoa vai até ao limite do humano para conseguir o quer, mas se o universo não conspirar um pouquinho a favor... não se pode fazer mais nada. Tudo o que se possa fazer nunca vai ser suficiente. Eu hoje quis estar noutro tempo, noutro espaço e noutra vida. Quis sentir aquela energia boa de ter metas grandes para cumprir e saber que chego lá. Quis sentir que estava a fazer parte de algo maior, maior até do que eu. Quis sentir o suporte, a base e o apoio da família. Quis tudo isso. Por acaso tropecei num texto que escrevi aqui em tempos, em que eu dizia que queria que parassem o mundo para eu fugir. Dizia também que só queria que me acordassem quando eles já tivessem voltado e quando eu já tivesse um amor que me fizesse feliz. Hoje a sensação é essa. Parem que eu quero sair. Acordem-me quando a família e o amor estiverem no lugar certo à hora certa. Se for possível, então que também o trabalho esteja no sítio certo à hora certa. Por favor. Se o universo conspirar um pouquinho a favor, a gente consegue. Só falta um bocadinho. 

14
Jul21

A primeira dose

Manga Meia-Loira

A minha 1ª dose da vacina contra a covid foi hoje de manhã. Marquei-a logo que abriu o autoagendamento para a minha idade e marquei para o local onde havia vagas mais cedo. Correu bem, muito bem. Pouca fila, pouco tempo de espera, desinfetante à porta, água à disposição, calma, simpatia e organização irrepreensível. Médico, enfermeiras e auxiliares acolhedores e disponíveis. Zero dor. Zero sintomas até ver. Estou imensamente grata: grata à União Europeia, que negociou as vacinas, grata ao nosso país e ao nosso governo, grata à task force da vacinação, grata ao enorme - no verdadeiro sentido da palavra - Serviço Nacional de Saúde que temos, grata a todos os médicos, enfermeiros, auxiliares, centros de saúde e autarquias. Grata por, em julho de 2021 e quase em tempo recorde, ter tido a possibilidade de ser vacinada estando na faixa dos 20/30 anos. Obrigada! A cada vacina administrada estamos um passinho mais perto de ganhar esta batalha. Estamos um passinho mais perto de uma vida mais segura e protegida. Obrigada!

P.S. Façam o favor de ir também se ainda não foram. Para encorajar, posso dizer que não esperei mais de quinze minutos e não doeu absolutamente nada. Ainda que tivesse esperado horas e tivesse doído, valeria sempre a pena. Ficamos um passo mais distantes de ir a parar a uma unidade de cuidados de intensivos e de precisar de um ventilador. Lembrem-se (também) disso.

10
Jul21

Coração curado

Manga Meia-Loira

Uma das coisas que mais me inquieta nisto dos (des)amores e dos corações partidos é que nunca há datas nem tempos marcados. Nunca escolhemos por quem nos apaixonamos nem quando. Não dizemos simplesmente "Ah, ali a meio de agosto vou-me apaixonar pelo Pedro" ou "No natal vou-me apaixonar pela Joana". Também nunca sabemos exatamente o que pode acontecer quando calha de nos apaixonarmos. Não dizemos simplesmente "Agora vou falar com ele, vamos começar a namorar daqui a uma semana, daqui a dois anos no dia X vamos casar" e por aí fora. Eu já me apaixonei e, se me perguntarem, nunca consigo saber como nem quando é que aconteceu. Sei que houve ali alguns momentos chave que me levaram a pensar que podia ser possível e que, quando dei por mim, já estava completamente perdida em amor e sonhos. Mas à parte de tudo isto, o que mais me inquieta é precisamente a parte menos bonita disto tudo (para não dizer a parte dura e dolorosa): é quando o amor não chega a acontecer ou então acontece e corre mal. É que, assim como não escolhemos por quem ou quando nos apaixonamos, muito menos escolhemos como ou quando nos desapaixonamos. Não podemos dizer "O Pedro partiu-me o coração em mil bocados, desfez-me a alma em pedaços e, portanto, amanhã quando acordar já vou estar em paz e feliz da vida e não vou sentir nada por ele". Não. Era bom mas não funciona assim. Não dá para dizer em frente ao espelho "A Maria foi uma besta comigo, tratou-me mal, partiu-me o coração e portanto daqui a uma semana eu já não vou estar apaixonado nem vou sentir nada por ela". Não há um tempo nem uma fórmula mágica. Cada pessoa é uma pessoa, cada relação é uma relação e há uma série de circunstâncias. Claro que há muito que podemos fazer para que o processo decorra normalmente, mas ninguém sabe como se cura um coração partido. Além do tempo, penso que pouco mais se poderá fazer. Dei por mim a pensar nisto porque hoje, fruto de umas coisas que li e vi, dei por mim a pensar "E se por acaso acontecesse, um dia destes, de aquela pessoa de quem eu acho que já me desapaixonei, me dizer que tinha sentimentos por mim ou que queria mesmo tentar ter uma relação comigo?". Nem sei bem como isto me ocorreu, até porque tal não vai acontecer e seria um bocado absurdo, mas pensei. Ao mesmo tempo que pensei isso, dei por mim a perceber que não, já não quero que ele faça isso, já não quero tentar com ele, já não tenho mais coração para isso, já esgotei o amor que senti e que tive por ele, já esgotei os sonhos, já deixei apagar as projeções. Já amei e sonhei e também já fui esgotando e apagando todo o amor e todos os sonhos neste caminho de ter que me desapaixonar. O que é que isto tudo me fez sentir? Fez-me sentir tranquila e feliz. Fez-me sentir que já fiz grande parte do caminho da cura e fez-me sentir que já só faltará um bocadinho pequenino para estar completamente curada e em paz. A outra pequenina parte far-se-á quando eu encontrar o amor verdadeiro e tudo me fizer sentido. 

07
Jul21

Vacina, aqui vamos nós

Manga Meia-Loira

Pois que finalmente - finalmente! - já pude agendar a vacina. Ia a conduzir quando me ligaram a dizer que podia marcar e foi uma loucura. Só queria chegar o mais depressa possível ao computador para agendar. Percorri o meu distrito e os dois mais próximos (sim, estou disposta a fazer uns quantos quilómetros) e a maior parte não tinha vagas. O meu centro de saúde não tinha vagas. Vi município por município nos três distritos e lá marquei para a data mais próxima possível, num local razoavelmente perto. Agora é esperar pela confirmação e cá vamos nós. Se der para ser de manhã e para não ter efeitos secundários nem ficar doente a gente agradece. Quero muito: quero a vacina, quero o certificado, quero viajar, quero ir a espetáculos, quero ir a concertos, quero tudo. Quero ter menos medo, quero sentir-me mais protegida, quero sentir que estamos a fazer algo para tentar voltar à normalidade e, mais, à liberdade. 2019. Quase dois anos e tantas saudades de poder sair noite fora, poder andar a monte, poder almoçar e jantar livremente sem horários, poder beijar e abraçar, poder sair sem máscara, poder tudo. Não haver máscaras, nem luvas, nem testes, nem restrições nem medo. Poder ser livre. Ninguém sabe como nem quando é que vamos voltar àquela liberdade perdida, mas isto é o que podemos fazer. Vamos a isso. Eu quero a minha pica. Já.

P.S. Façam o favor de querer - e ter - a vossa pica também, que isto ou somos todos ou então não vale.

06
Jul21

A possibilidade depois da tempestade

Manga Meia-Loira

Não me ocorre outro título nem outro pensamento. Não, aquele e-mail não é um sim. Não, não é garantia de nada. Mas para quem caiu vinda do céu sem qualquer tipo de preparação, para quem nunca tinha feito nada parecido, para quem foi - no fundo - "tentar a sorte" e ver o que acontecia, para quem nem tinha/tem certezas... aquele e-mail é uma vitória. Aquele e-mail é improvável. Aquele e-mail é superação. Não sendo nada, já é muito. Não representando um sim, já é uma mensagem da vida a dizer que sim - afinal e a final tudo vale a pena se a alma não é pequena. Hoje, num dia péssimo e de chuva por dentro e por fora. Hoje, em que a descrença e o desalento foram maiores que o resto. E pensar que naquela manhã também estive a mílimetros de deitar a toalha ao chão. Afinal vale a pena. Não sendo um sim, não sendo na prática nada, o que vem lá escrito é que tudo a vele a pena se a alma não é pequena. Na prática é zero. Na vida, na alma, nas expectativas, nas projeções, nos projetos, nas possibilidades... já é muito. Já é uma vitória. Já é um "estás quase lá". Já é um entregar para a vida... e se tiver que ser que seja, e que seja o melhor.

05
Jul21

Chuva de julho

Manga Meia-Loira

É julho e chove. Chove lá fora, no carro e dentro de mim. Às vezes é julho e a chuva de fora junta-se à chuva do coração, da alma e da vida. É julho no mundo e tudo me parece errado por mais que um segundo. É julho, chove e o (meu) mundo está ao contrário. Às vezes é julho e o dia é mau, feio, cinzento e escuro, lá fora e cá dentro. É julho e eu quero viajar e não posso; quero ir ter com os meus e não posso; quero ser vacinada já e ainda não posso; quero que os meus voltem e eles não voltam; quero vender o negócio e nunca mais vendo; quero ter paz no coração e não consigo; quero ter tranquilidade no amor e não consigo; quero acreditar em tudo e não consigo; quero sentir-me realizada no trabalho e não sinto; Gostava muito que o universo conspirasse a favor, gostava muito que agora as previsões e o alinhamento das estrelas estivessem certos, gostava muito que tudo mudasse. Gostava muito de escrever este julho noutras cores. Gostava muito de desenhar um verão feito de paz, amor, sonhos e família. Às vezes sinto-me cansada. Exausta. Sou eu em tudo. Sou eu para tudo. Sou eu a levar o mundo às costas. Sou eu que estou sempre forte, determinada, persistente, lutadora. Sou eu que levo tudo à frente. Sou eu que estou sempre de sorriso no rosto e a brincar. Mas da porta para dentro e de fora para dentro também há dúvidas, angústias, frustrações, lágrimas, fragilidade, vulnerabilidade e tudo o resto. De fora para dentro sou tão humana, sentimental e falível como toda a gente. Ainda que eu seja sempre aquela que só se deixa desabar à porta fechada, e que a seguir limpa as lágrimas e abre a porta a sorrir e pronta para levar o mundo para a frente. Hoje é um dia assim. Em que só me apetece fechar a porta e desabar. Espero que seja apenas hoje. Que julho se desenhe noutros tons e sentimentos. Agora lá vou limpar as lágrimas para abrir a porta, falar e sorrir. Ela continua. A vida. Sempre. 

02
Jul21

A cédula

Manga Meia-Loira

Hoje recebi a minha cédula profissional. Quando decidi fazer o estágio, decidi-o porque era algo que eu achava importante e que queria fazer, mas nunca encarei este caminho como algo para a vida. Aliás, fui feliz durante o longo período do estágio mas sempre na certeza de que, depois, iria para outras paragens. Porque nunca quis ser profissional liberal, porque isto exige demasiada entrega, porque isto exige muito esforço e sacrifício pessoal, porque os horários se estendem e não há grande fronteira entre o pessoal e o profissional, porque só queria um horário certinho e férias certinhas sem ninguém me chatear muito, porque nunca tive propriamente o desejo de trabalhar a solo, porque nunca tive propriamente a vontade de carimbar o meu nome numa placa, numa porta, em documentos e por aí fora. Aliás, andei durante todo o longo tempo do estágio convencida de que nunca chegaria a receber a cédula. Convencida de que, depois da aprovação e de chegar à meta, suspendia logo a inscrição e seguia caminho para outros locais. Em momentos em que me senti zangada com a minha Ordem, cheguei a dizer que só queria cuspir na cédula antes de a devolver. Cheguei a dizer que, se tudo corresse bem, eu suspendia a inscrição e não a voltaria a ativar.  É verdade que terminei o estágio, é verdade que passei nas provas, é verdade que a seguir fui logo para outras paragens. O plano estava traçado e eu segui-o. Quando me inscrevi, fi-lo na certeza de que era para suspender a seguir. O que se seguiu foi tudo completamente ao lado dos planos: a verdade é que tudo o que (me) aconteceu no local para onde quis ir foi de uma enorme infelicidade. Fui de coração aberto e alma plena, pronta a ficar e a dar o melhor de mim, mas o que se seguiu foi mau, demasiado mau para ser verdade. Não gostei de praticamente nada, perdi a paz, perdi a calma, perdi as certezas, chorei mais que a conta, contei as horas todas e os minutos todos, perdi a auto confiança e a segurança, ia perdendo a auto estima, por fim perdi o sono e a fome, e houve um dia em que tive de pôr um ponto final. Depois desse ponto final, acabei por voltar. Repensei, refleti, questionei, escrevi, pedi opiniões, fiz consultas, ouvi quem achei que era importante ouvir e por aqui estou. Sem grandes certezas, sem saber muito bem se é mesmo por estes lados que vou permanecer, sem saber se isto é mesmo o melhor para mim, mas com a certeza de que só saio para algo que seja efetivamente melhor. Só saio para algo que me traga vantagens e que me faça feliz e não volto a cometer os erros que cometi. E é assim que hoje, dia 2 de julho, acabo com uma cédula profissional na mão, daquelas a sério, com aquele símbolo atrás brilhante, e sem planos para a devolver. Se calhar, e refazendo o que disse tantas vezes antes, se tudo correr bem fico com esta cédula para sempre. Já não direi mais que a quero devolver. Nunca de ânimo leve. Só e apenas se algo melhor estiver para vir. Se calhar esta cédula dá-me uma paz e realização que não encontro noutros locais. A verdade é que este dia aconteceu. Provavelmene teria de acontecer... e aqui estou eu, com a cédula e com respeito por ela e por este caminho, sem a querer devolver e sem lhe querer "cuspir". A vida há-de desenhar-se como tiver de ser desenhada, o caminho far-se-á caminhando, e o que tiver de ser será. A cédula é minha, é fruto de todo o meu estudo, esforço e mérito, e eu vou guardá-la num canto especial. Se um dia a devolver será também por bons motivos. Se ficar com ela para sempre também será por bons motivos. Assim seja.

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