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Manga Lima

Manga Lima

13
Ago23

O que é que ainda estou lá a fazer?

Manga Meia-Loira

Há dois anos atrás, no início de 2021, abracei de corpo e alma um desafio profissional que muito rapidamente se tornou num pesadelo. Não encontro outra forma de o dizer, e a verdade é que o entusiasmo e a confiança com que entrei naquela empresa se esfumaram à velocidade da luz. Em poucas semanas já não conseguia comer normalmente, dormir, descansar e viver. Foram quase três meses de um processo duríssimo. Saí e calmamente voltei à base, no meu caso à advocacia. Fui recuperando lentamente e voltei a sentir-me em paz no trabalho. 2021 foi passando e em setembro, quando eu menos esperava e imaginava, ligam-me. Era um novo desafio, desta vez na administração pública como eu queria, mas (há sempre um mas, não é?!) longe de casa. Aceitei. Nem tive tempo de refletir, e fui sempre na premissa de ficar se e enquanto fosse feliz. Na pior das hipótese voltaria à minha base. Também aceitei na condição de continuar a viver em casa e de manter aquilo que tinha onde vivo. Nunca esteve na equação mudar de cidade. Quase dois anos depois, o que posso dizer? Fui muito feliz, que fui, fui recebida de braços abertos e muitíssimo bem acolhida como não esperava, gostei muito do tipo de trabalho que fiz, encaixei lindamente na belíssima equipa que me calhou, e tive uma sorte imensa com a equipa, encontrei boas chefias e pronto. Foi sendo assim, e foi por tudo isto e em nome de tudo isto que fui ficando. Que estou lá ainda agora, tanto tempo (e viagens e quilómetros e comboios) depois. É óbvio que nem tudo foi fácil e que a logística das viagens é dura, e é óbvio que muitas vezes bufei e barafustei, mas apenas por causa da distância. E, no fim, tudo valia a pena. O que mudou? Desde julho mudou tudo. Tivemos que mudar de edíficio por força do enorme aumento que a equipa vai ter. Tivemos que mudar a estrutura orgênica também por isso. Perdemos dois elementos fulcrais com esta reestruturação. Vamos receber um batalhão de gente. Pelo meio tenho sentido muito, com pena minha, que o que havia de mais bonito se foi quebrando. O sítio lindo onde estávamos, o núcleo duro e espetacular que éramos, a nossa forma de ser, estar, trabalhar, a forma de encarar o trabalho e mais uma série de coisas. Pelo meio, sou neste momento "o tolo no meio da ponte". Fiquei sempre, fará daqui a pouco dois anos, porque quis e por gosto. Não imaginava ficar tanto tempo quando fui, mas a verdade é que senti que aquele era o meu lugar. Tanto que não me voltei a candidatar a mais concursos públicos, e abriram concursos para vagas ao lado da minha casa. Mas agora não. Agora sinto que aquilo que me ligava - e dava sentido a todo o esforço das viagens, do tempo dispendido e do cansaço - desapareceu. Se calhar foi desaparecendo. E a verdade é que, quebrando-se aquilo que fazia tudo valer a pena, então ganho tempo, dinheiro e qualidade de vida ao trabalhar ao lado de casa. Lá está, o que me fez ficar apesar de todos os pesares da distância foi um conjunto de coisas que no entranto se foram esfumando. Que com estas mudanças recentes deixaram de existir. Ainda não tive a coragem de assumir que quero mudar e de tentar efetivamente uma mudança, mas tenho uma certeza. Se as coisas se mantiverem como estão, então eu quero sair. Por mais receios que uma mudança possa provocar, se tudo ficar como está neste momento então que quero ir embora o mais rapidamente possível. Vamos ver, pensar e avaliar, mas nos próximos tempos e nos próximos meses tenho que me decidir.

10
Ago23

A cada despedida

Manga Meia-Loira

A vida é muitas vezes irónica e deixa-nos nas mãos os desafios mais difíceis.
Quis ela que eu, a pessoa que tudo o que mais queria era ficar para sempre pertinho da família e da casa, tivesse de lidar com uma família que foi viver para o outro lado do Atlântico.
Ora, isso leva a várias chegadas e partidas, minhas e deles, e a todas as lágrimas e dores e saudades que se possa imaginar.

E pronto, cabe-me muitas vezes a mim deixar o aeroporto sozinha e em lágrimas depois de os levar. 
Passaram-se anos e anos, mais de dez anos.
Não fica mais fácil, nem mais simples, nem mais nada. 
A cada despedida ficam as lágrimas, o coração pequenino e apertadinho, e saio sempre de lá com o maior vazio do mundo.

Poderiam passar-se vinte anos que acho que seria igual. 
Poucas coisas na vida me custam mais do que sair daquele aeroporto sozinha depois de os deixar.

Eles hão-de voltar, e espero que um dia isto sejam memórias de um tempo longínquo. Mas mesmo assim desconfio que este sentimento de vazio que fica na hora da partida dificilmente será esquecido.

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