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Manga Lima

Manga Lima

30
Jun18

Desta semana. Deste ano. Aos meus pais. (27 de Junho)

Manga Meia-Loira
Esta semana terminou o ano letivo mais difícil de toda a minha vida. Esta semana traz, também, o regresso deles para férias. Quarta-feira fiz aquele que foi o último teste do meu percurso académico e sabia que tinha de escrever algo antes do regresso deles. Foram dias de emoções misturadas. Poderia ter escrito muito sobre os dias deste ano em que me estendi no chão a chorar, e foram tantos. Poderia ter escrito muito sobre a dimensão do desamparo que senti, sobre a solidão, sobre a sensação de perda do norte. Poderia ter escrito muito sobre a quantidade infinita de vezes em que precisei desesperadamente que eles estivessem presentes - e foram mais que muitas, todos os dias sem excepção. Poderia ter escrito sobre como trocava tudo, mas mesmo tudo, sem sequer pensar, pelo regresso deles. Sobre a quantidade de sextas feiras em que saí da universidade desfeita em lágrimas e encontrei em casa o dobro dos motivos para me sentir ainda mais desfeita. Sobre a angústia que tantas vezes me deixou o peito num nó ou sobre a sensação de vazio (e o vazio foi tantas vezes tanto e tão grande!). Senti-me, mais do que quando levei o choque de os ver a viver do outro lado do oceano, completamente perdida e a perder o sentido da vida - caramba, para mim a família sempre foi O sentido da vida e não consigo. Não consigo que seja diferente. E isto traz-me um peso muito maior e mais difícil de suportar. Precisei deles muito mais do que aquilo que algum texto poderá algum dia mostrar. Mesmo assim, consegui cumprir com aquilo que tinha de fazer na universidade e isso nunca deixará de ser um quase-milagre. Quarta-feira saí daquele teste e tinha, porque tinha de o fazer, de me sentar na igreja. E fui e sentei-me e acho que conseguir passar por cima das dores que eu vivi para cumprir com o que a universidade exigiu foi uma vitória do tamanho do mundo. Eu não concluí um ano de mestrado, eu superei dores de alma e de coração inimagináveis e pelo meio consegui fazer o que tinha de fazer. Tive de fazer um esforço gigantesco para conseguir o que quer que fosse. Talvez por isso nunca me tenha sentido tão desgastada, cansada e arrasada como neste final de ano. Foi um esforço para lá do humano. Nunca terei palavras para aquilo que significou tê-los longe quando tudo me doía. Nunca terei palavras para aquilo que significou tê-los longe quando fui obrigada a perceber que não mando no coração nem nos sentimentos, e que o coração não me poderia ter arranjado um caminho mais difícil para percorrer. Nunca terei palavras para aquilo que significou/significa tê-los longe e ter de lidar com uma história de (des)amor assim, que parece nunca mais se resolver. Nunca terei palavras para aquilo que significou tê-los longe e ter de lidar com um mestrado que foi a maior frustração de sempre, que deu cabo de todas as espectativas que eu tinha - e eu, parva que sou, tinha tantas! - e que de tão mau pareceu surreal. Foi, de uma ponta a outra, um ano a ferro e fogo. Quinta à noite sentei-me e, lágrima atrás de lágrima, tentei escrever-lhes aquilo que espero que este tempo seja e aquilo que espero que o futuro seja. Não falei de dor nem deste ano que passou, falei muito mais sobre aquilo de que preciso. E escrevi isto. Amanhã de manhã eles chegam e eu espero que tudo bata certo no mundo ainda que por um segundo.

 

"Este ano está agora a terminar, vocês estão a chegar e eu não quero que vocês venham sem escrever algumas coisas. Acho que este foi o ano mais difícil das nossas vidas, pelo menos para mim foi, e por isso é que este tempo que vem vai ser tão importante. Estou a precisar, muito e mais do que nunca, do vosso colo. De todo o colo do mundo, daquele que tive numa outra vida e que tanto precisei e preciso. Preciso dos vossos sorrisos, dos vossos abraços e da vossa voz. Preciso disso tudo para ganhar alguma força. Precisamos todos. Não quero mais do que isto: colo, sorrisos e luz. Estou a precisar de luz. Estou a precisar, mais do que nunca, de sossegar o coração e saber que vocês estão perto. Saber que vocês estão cá, aconteça o que acontecer. Saber que tenho uma rede de segurança, um suporte e um apoio. Saber que o mundo até pode acabar mas vocês estão aqui perto. Saber que basta abrir a porta e vocês estão lá. Saber que basta querer e posso me sentar com vocês. Posso falar com vocês. Posso almoçar e jantar com vocês. Posso passear com vocês. Posso ser filha e posso ter o nosso colo. Nem me parece real, e talvez por isso só me consigo lembrar das coisas mais simples e só consigo pedir as coisas mais simples do mundo para estes dias: só vos quero ter perto. Não preciso de mais nada. Só isso: poder ser filha e ter colo. Precisei mais de colo durante este ano do que quando era bebé, e agora espero conseguir ir aí buscar forças. Preciso muito da vossa luz: de toda a luz possível para me lembrar que vale a pena viver e que não posso desistir de mim. De toda a luz para me lembrar que há esperança no futuro e alguma esperança em mim. Este ano precisei desesperadamente de vocês todos os dias e bati no vazio, no desamparo e na solidão e tristeza profundas. Estendi-me a chorar vezes e vezes sem conta, tentei ler, tentei acreditar, tentei continuar, tentei tudo e nada foi suficiente. Por isso só quero o mais simples: colo e luz. Quero voltar a sentir que ainda há um círculo de amor a que pertenço. Quero voltar a sentir que vale a pena continuar. Quero voltar a sentir que há alguém que acredita em mim e no futuro. Quero muito o futuro. Preciso muito do futuro e de falar no futuro. Preciso ainda mais que vocês tenham tudo pronto para voltar. A ideia de voltar foi o único ponto de luz que fui conseguindo ter no meio do desespero, do desamparo e da solidão. Preciso, mais do que tudo, de sentir que não estou sozinha no mundo. Preciso de sentir que há alguém que me ajuda a não desistir dos sonhos e de acreditar no futuro. Precisamos todos disso. Preciso muito que vocês façam tudo o que puderem para que a situação que existe se altere. Preciso muito que vocês se lembrem, e lembrem estas pessoas, que isto é VOSSO e que a situação tem que mudar. Preciso, urgentemente, que vocês façam isso por mim. Preciso que vocês mostrem que não é para continuar igual. Que a injustiça já foi longe demais. Preciso muito que vocês deixem tudo pronto para que o projeto que temos se realize rapidamente. Preciso muito disso. Preciso muito de tudo isso para me agarrar ao futuro e à vida. Foi tudo mau demais. Tem sido tudo mau demais. Por isso é que preciso que vocês comecem a exigir que as coisas por cá mudem. Por isso é que preciso, ainda mais, que o projeto que temos se realize. Espero e preciso que este seja um tempo de paz, de amor, de presença. Que seja um tempo de exigir que mude aquilo que tem de mudar e de planear e sonhar o futuro. É só isso. É tanto e é, ao mesmo tempo, tão simples e natural!"

 

 

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