Páginas em branco
Páginas em branco.
Voltei, por força do exame que se aproxima, aos cadernos das aulas da Ordem. Voltar a estes cadernos é voltar àquele início de 2019 e, sobretudo, àquele fevereiro tão doloroso. É voltar à conversa que nunca queria ter tido. É voltar àquela noite fria de sábado em que a porta se bateu. Encontro, neste primeiro caderno que marcou aquela altura, alguns espaços em branco. Não sei agora exatamente a que se devem estes espaços que representam aquilo que não consegui apanhar nas aulas. Sei que, se calhar, muitos deles significam que o meu cérebro se desligou por segundos porque o meu coração andava noutras paragens, bem mais escuras, frias e difíceis. Pode até não ser, não sei, mas estes espaços em branco nos cadernos levam-me a isso. Àquele sentimento que gostava muito de nunca ter conhecido, em que o mundo para e tudo se desliga porque o nosso coração está desfeito e precisa de oxigénio.
Passou um ano e meio. O mundo continuou a girar. A vida já me permitiu rir por dentro, felizmente. A conversa aconteceu quando teve de acontecer e desde aí os caminhos do coração tem saído mais calmos. Já é muito bom e já fico grata por isso. Mas mais calmos não significa mais fáceis ou mais bonitos ou mais felizes. Mais calmos é muito bom mas ainda é pouco. Sei que é pouco porque, como tão bem ouvi alguém dizer, ainda há dias e alturas em que passam assim umas nuvens escuras pelo cérebro e pelo coração. Dias em que essas nuvens acontecem, aparecem e existem. Dias em que não as ignoramos, vamos tendo de viver com elas... na esperança de que sejam cada vez menos e mais clarinhas. Um ano e meio depois o caminho ficou mais fácil mas estes espaços em branco lembraram-me que, de vez em quando, ainda há assim umas nuvens escuras daquele tempo que me vão invadindo.
Hoje parece-me que andam por aí umas nuvens a chatear e este texto faz ainda mais sentido.
