Para onde vão os barcos que construímos?

Para onde vão os barcos que construímos quando estamos tristes? Para onde vão os barcos que construímos quando o coração se aperta e a nossa vida parece uma equação que nunca se resolve? Para onde vão os barcos que construímos quando a incerteza das idas e voltas nos aperta o estômago e a esperança? Para onde vão os barcos que construímos quando estamos tristes e só queremos um pedaço de amor do círculo a que já pertencemos? Quando a família e o amor nos parecem caminhos que nos fogem por entre os dedos todos os dias e isso nos destrói aos bocadinhos? Quando nos olhamos de fora para dentro e percebemos que nos falta o essencial, sabendo que não está ao nosso alcance fazer nada contra isso? Para onde vão os barcos que construímos quando estamos tristes e temos medo, tanto medo, do tempo que ainda falta até ao regresso final? Para onde vão os barcos que construímos quando percebemos que a única pessoa que nos toca no coração é impossível por várias razões? Para onde vão os barcos que construímos quando estamos tristes e o amor nos parece um lugar estranho, uma desdita que nunca se resolve e nos faz duvidar do futuro? Para onde vão os barcos que construímos quando choramos uma vida que não temos e que sonhamos e devíamos ter? Quando choramos a vida que temos e as mudanças que não acontecem, raios!, porque não acontecem? Para onde vão os barcos que construímos quando saímos mais uma vez pela porta branca da cozinha, uma ao fim de tantas e tantas, e passamos mais uma vez por aquele caminho e fechamos mais uma vez aquele portão verde e entramos mais uma vez no carro que mais uma vez está no mesmo sítio? E a chuva que não para, qual mar onde os barcos podem navegar, e as nossas lágrimas a perguntar para onde vão os barcos que construímos quando já estamos exaustos de um sítio e da vida que temos nesse sítio e damos tudo pela paz de uma mudança? Para onde vão? Não sei, talvez a chuva e o nevoeiro não deixem ver que há um porto seguro e calmo à espreita.
