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Manga Lima

Manga Lima

23
Jan17

(Per)Curso

Manga Meia-Loira

Sempre fui a menina fascinada por livros, canetas, lápis e cadernos. Sempre gostei, também, de conversar muito e ouvir conversas. Sempre gostei da escola e sempre quis dar o melhor de mim: não que alguém me obrigasse ou que eu conscientemente achasse que tinha de ser boa aluna ou a melhor. Simplesmente nunca consegui fazer as coisas sem a certeza de que estou a dar o meu melhor, de que ponho tudo de mim naquilo que faço. Lembrei-me agora, aliás, do poema de Pessoa "Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes. / Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive." Resume muito daquilo que penso que sou. Primeiro veio a escolinha primária: aprender a ler, escrever e contar. Ri, cresci, tive uma excelente professora, aprendi e fui feliz. Ter um pai com a maior paciência do mundo e toda a disponibilidade para ensinar, ajudar e acompanhar também foi importantíssimo. Não me esqueço de tudo o que ele fez para me acalmar a frustração de não conseguir fazer logo as contas de dividir de forma correta e do quadro branco que ele comprou. Depois veio a escola maior: várias disciplinas e professores e novos colegas. Gostei mais de umas coisas do que de outras e tive bons professores no geral. Cresci, aprendi, deixei grande parte da infância/adolescência naquela escola e posso dizer, no geral, que fui feliz. Fiquei mais contente com umas notas do que com outras e tive, sempre, a paciência e disponibilidade do meu pai quando precisei: aprendi a estudar com ele (os esquemas que ele fazia!) e fui, depois, ganhando autonomia até estudar sozinha. Chegou o nono ano (fui tão feliz no nono ano!) e com ele a necessidade de escolher um curso: sempre soube que não queria físicas, químicas nem laboratórios. Gostava de matemática e tinha uma paixão por português. Sabia, à partida, que iria acabar nas ciências humanas ou sociais e acabei, assim, no curso de ciências sócio-económicas. A curiosidade em saber o que era, afinal, a economia ajudou e lá fui. Mudei de escola e fui imensamente feliz no secundário. Tive bons professores e uma turma espetacular. A nível familiar também foi uma fase boa e foram três anos que voaram (a vontade que tinha de chegar à universidade e a pressa pelo futuro ajudaram). Não me arrependi um segundo do curso que escolhi e diverti-me mesmo entre o estudo da contabilidade nacional, dos rios, dos Maias ou de Pessoa. Achei, logo no nono ano e até ao décimo primeiro, que ia escolher gestão ou economia e acabar numa empresa. No décimo segundo ano fui-me zangando com a matemática na mesma proporção com que me apaixonava por portugês. Ora, isto fez-me repensar o futuro e perceber que se calhar ia ser mais feliz entre livros do que entre tabelas e contas. Ainda me lembro das conversas com o meu pai e de ouvir dele um "Podes sempre escolher Direito". Fui resolvendo a zanga com a matemática com a melhor explicadora do mundo mas o coração andou ali a balançar. Ainda faltavam uns meses e o entusiasmo e alegria que sentia por estar quase a chegar à universidade foram únicos: posso dizer que me senti invencível, completa, realizada, expectante e com a cabeça a rebentar de sonhos e planos. Decidi finalmente que o (per)curso seria a Direito (ou nem tanto, mas isso não sabia eu) e naquela tarde de verão, sentada no sofá com o site da DGES aberto, foi com o coração que ordenei as seis opções possíveis. A razão esteve lá sempre, mas não esteve sozinha. Seria o que a vida quisesse e permitisse e o futuro era mesmo ao virar da esquina. Lembro-me de estar com a A. e de lhe dizer que seria o que o que a vida (e Deus) quisesse. Aquele décimo segundo ano foi tão especial que nem a perda das nossas duas estrelas me fez abrandar a sede de futuro e os planos. Este ano completam-se cinco anos desde aquela tarde de Julho em que escrevi (e decidi) uma grande parte do meu futuro. Aos dezassete (quase dezoito) era feita de futuro, sonhos e planos. Não imaginava eu que nesse mesmo Julho a vida daria uma volta, e uma volta tão grande que nada voltou ainda ao sítio. Passando esse dia do fim de Julho que não quero que me fique na história, a verdade é que esse ano letivo seguinte foi tudo o que não poderia ter sequer previsto em sonhos (ou pesadelos). A distância, a dor, a frustração e a perda de tudo falaram por si e pelo meio perdi-me de mim e da vida. Ao fim de uns meses dei por mim e não sabia quem era ou que futuro queria. A universidade chegou finalmente e transformou-se num ponto fraco, numa dor que nunca imaginei e que me fez duvidar de tudo. Foi um choque a todos os níveis e o choque tinha começado na família e materializava-se na universidade. Duvidei de mim, da vida, do curso, das minhas capacidades, do futuro, do amor e da família. Senti-me como uma espécie de animal pequeno, ferido e abandonado. Chorei todo o primeiro semestre, quis mudar de vida e de curso, senti-me perdida e posso dizer que me doeu viver todos os dias daquele semestre. Pelo meio, nunca desisti de me levantar da cama, ir às aulas, tirar apontamentos e fazer testes. Nunca me esquecerei daqueles primeiros dois testes e de como me sentia. Ainda hoje, à distância de quatro anos, há memórias que tenho de locais e sensações que me deixam admirada com o sofrimento que suportei. Encontrei a melhor psicóloga do mundo (a sorte que eu tenho!) e nunca desisti: acho, aliás, que foi esse o segredo. Fiquei completamente estupefacta quando comecei a ver os resultados dos testes que fui fazendo. Mesmo estando na pior fase da vida, sem conseguir estruturar um texto e sentindo-me incapaz, fui tendo bons resultados e isso foi um motor que me impulsionou e fez continuar. O tempo foi passando e, pouco a pouco como uma semente que floresce, as dúvidas foram-se dissipando e a tranquilidade foi vindo. Percebi que aquilo que começa torto pode ficar, afinal, direito e percebi também que estava a gostar seriamente daquilo e queria continuar. A partir daí o (per)curso foi-se fazendo a ele próprio: conheci pessoas espetaculares que me fizeram sentir parte da universidade, cresci muito (tanto, mas tanto) a todos os níveis, aprendi muito mais que o que consigo explicar ou escrever, estudei sempre até à exaustão todos os dias, manhãs, tardes e noites, ganhei uma autonomia que ainda me surpreende, ganhei uma auto-confianca e auto-estima que também me surpreendem (e fazem tão bem!), sorri, gargalhei, tive centenas ou milhares de horas de aulas, preenchi centenas ou milhares de páginas e cadernos, estive numa associação e isso foi das maiores (boas) surpresas e nunca, mas nunca, deixei de me surpreender pelos resultados que tenho. Isto é bom porque a minha exigência de perfeição é tanta que acabo sempre a achar que fiz uma valente porcaria e, afinal, até nem foi assim tão mau. Exigir sempre o melhor de nós e querer a perfeição não é bom nem mau: tem vantagens e desvantagens e dá uma grande trabalheira e ansiedade. É como pensar demais: às vezes dói. Não me arrependo, nunca, do (per)curso que escolhi e que tenho feito. Estarei sempre grata à vida e à família por ter oportunidade de aprender tanto e crescer ainda mais, como profissional e como pessoa. Não tem sido um percurso fácil, muito menos tem sido a direito ou em linha reta. Na verdade também nunca quis um caminho fácil, queria um curso que me desafiasse e acertei na mouche. Passaram-se quase quatro anos, ainda não acabou e já tenho saudades. Tenho, todos os dias, a certeza de que há um anjo que me guia por este (per)curso: relembrando o início e aquela tarde em que me ajoelhei na igreja não posso ter outra explicação. É isto que me dá a certeza de que se há um Jesus ele será, com certeza, bom. Não conheço o anjo que me guia, mas sei que ele é a certeza de que há coisas que têm mesmo que acontecer. Ou de que, pelo menos, a vida é às vezes perfeita naquilo que tem de ser. Não sabendo o futuro, e seja ele a direito ou não, só posso estar infinitamente grata à vida, à família e a esse anjo por este percurso. [Tudo porque me lembrei que se passaram quase cinco anos desde aquela tarde de Julho em que o futuro era já ali]

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