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Manga Lima

Manga Lima

02
Jan19

Profissão, Carreira, Vida

Ju

Ontem li num blog algo que me deixou a pensar. O texto dizia que muitas vezes a carreira que queremos, com que sonhamos e para a qual estudamos implica ter uma vida/estilo de vida que não queremos. Isto no sentido em que, se for uma profissão exigente, pode implicar horários longos, saídas tardias, ter trabalho ao fim-de-semana, levar trabalho para casa e tudo isso. E é um esforço que temos de ver se estamos dispostos a fazer, ou se é compensador. E mais do que qualquer coisa, digo eu, porque escolhemos o curso com 17 anos e a vida e estilo de vida que queremos aos 17 anos pode não ser a que queremos aos 20, 25 ou 30. Ler aquilo atingiu-me seriamente naquele pedacinho de cérebro que nos faz pensar. Eu tinha 17 anos quando escolhi o curso, achava que a minha vida ia girar sempre (quase) só em torno da parte profissional e o meu grande objetivo de vida era alcançar o topo profissional. Tinha 17 anos e, nesse pressuposto e porque achei também que era algo que ia gostar muito, escolhi Direito. Numa coisa não me enganei: adorei de paixão o curso e fui muito feliz a estudar. Enganei-me redondamente em tudo o resto. Tinha 17 anos, a minha vida tinha sido sempre um caminho em linha reta em que eu queria as coisas, esforçava-me o suficiente e tudo acontecia como e quando eu queria. Tinha 17 anos, dava tudo de mim na parte escolar/académica e achava que seria sempre assim. Mais do que isto: tinha 17 anos e não sabia (quase) nada sobre o amor. Passaram-se mais de seis anos e tudo mudou. Eu mudei profundamente. Logo a seguir à minha escolha de curso os meus pais decidiram que iam viver para outro país e o chão desabou-me nesse momento. Eu acabei por ficar, ovbiamente, e a vida como eu a conhecia acabou ali naquela manhã de Julho. Estes últimos seis anos foram, por isso, um mergulho profundo na ausência, na saudade e no vazio que eles me deixaram. Foram uma reflexão longa sobre o sentido da vida, da família e do amor. Obrigaram-me de forma dura a perceber o que é importante na vida e o que é apenas um complemento. Fizeram-me entender o valor da família, do amor incondicional e a importância das pessoas de quem gostamos. Obrigaram-me necessariamente a perceber que nada vale mais que a família, e que os momentos que vivemos com as pessoas de quem gostamos são tudo. Com o tempo percebi também que gostava muito (tanto!) de um dia casar e ser mãe. Aquilo que com 17 anos me parecia distante e impensável deixou de ser: afinal quero muito ter um amor e ser mãe, mesmo que possa nunca acontecer.

Com tudo isto eu mudei, a minha forma de ver a vida mudou e aquilo que que quero da vida mudou. Fiz o curso, fiz o primeiro ano de mestrado, estou a começar a tese, comecei a estagiar e inscrevi-me na Ordem dos Advogados. Estou a estagiar desde Agosto como advogada-estagiária e percebo todos os dias que, ainda que a profissão seja desafiante e bonita e tudo o resto, não quero ter aquela vida para sempre. Percebo todos os dias que não quero nem estou disposta a ter aquela vida, ou a vida que tem um advogado. Quero completar o estágio mas não quero, de todo, exercer advocacia. É de um desgaste físico e psicológico extremo e não estou, de todo, disposta a fazer esse sacrifício. Pelo menos por agora, ou da forma como eu vejo a vida agora, não quero. Nunca deixarei de ser advogada, ainda que não exerça advocacia. Nunca esquecerei o que estudei e aprendi e aprendo, ainda que não exerça. Nunca deixarei de ter as competências e conhecimentos que adquiri, ainda que trabalhe numa área diferente. Nunca deixarei nada disso porque isso é parte do que sou, e está-me entranhado e enraízado já na essência, mas percebi que a vida é e tem que ser necessariamente muito mais. Que a vida é e tem de ser, para mim, muito mais. Quero ter tempo para os meus pais e para a minha irmã, que vão voltar a viver cá. Quero ter tempo para a família e para a vida em família. Quero encontrar um amor e ter tempo a dois e vida a dois. Quero ter tempo para os meus amigos. Quero ter tempo para criar memórias, ler, sorrir, passear, sonhar em família e sonhar a dois. Não quero ficar a trabalhar até à hora de jantar ou mais tarde, não quero levar trabalho para casa (de todo!), não quero trabalhar ao fim-de-semana. Não quero nunca que os meus pais me liguem e eu diga que não tenho tempo ou não posso jantar com eles. Não quero nunca que o namorado/marido que hei-de ter me ligue e eu diga que não tenho tempo, que não saio a horas ou que não posso jantar com ele. Não quero nunca que o meu filho diga que saio tarde, não tenho tempo ou não estou presente. Não quero nunca que os meus amigos digam que nunca posso estar presente. Porque no fim somos só um profissional, um trabalhador, um número, uma pessoa que serviu para realizar certa tarefa. No fim, não há cliente nenhum nem entidade patronal nenhuma que pague ou mereça o sacrifício da nossa vida pessoal (até porque não tem preço). No fim somos só alguém que é sempre substituível, e é esse o sentido do mercado e da vida profissional. Não somos um objeto mas somos alguém que serve para desempenhar tarefas, é essa a verdade. Como disse Carme Chácon no que refere à maternidade "Não sacrifiquem a maternidade pelo trabalho, ninguém vos vai agradecer por isso", e a verdade é que não, ninguém nos vai agradecer por nada. Porque no fim... no fim ninguém nos ergue uma estátua (nem te de erguer). 

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