Quando nos despedimos a dizer "Fui tão feliz!"
A semana passada despedi-me do sítio onde tive aulas da Ordem. Podia escolher entre duas cidades para ter aulas, e demorei muito a escolher. Precisei de pedir opinião ao meu pai e de pensar e repensar, e no fim lá escolhi Guimarães. Guimarães não era minha, não me pertencia e não tinha grande significado para mim. A outra cidade muito menos. Entre uma e outra escolhi Guimarães porque era o sítio mais perto, embora não gostasse do horário, e quanto mais perto de casa mais felizes seremos... e quanto mais pequeno for o ambiente mais felizes seremos (um obrigada ao meu pai, que me diz isto desde os 10 anos e cada vez me faz mais sentido). Escolhi Guimarães mas estive sempre apreensiva com esta coisa das aulas. Nós já estagiamos todos os dias, o trabalho já não é propriamente fácil, e ainda íamos ter aulas.... aulas todos os dias, três horas por dia, desde o ínicio do ano até agora. Não pensei muito, mas torci o nariz desde o início. Para juntar à festa, eu estou também a escrever a tese de mestrado. E isto tinha, portanto, tudo para correr mal... ou pelo menos para ser uma coisa chata e não trazer nada de bom.. mas não. Muito pelo contrário, Guimarães foi assim uma espécie de nuvem colorida e doce durante estes últimos meses. Levei logo com uma surpresa daquelas que nos fazem sorrir por dentro e por fora quando percebi que, afinal, estava a voltar a ser feliz sentada numa sala de aulas... e isso era tudo o que eu mais precisava sem o saber, depois daquele ano horrível de mestrado. E continuei a ter motivos para sorrir muito quando percebi que os professores e os funcionários nos tratavam com o maior cuidado e carinho do mundo. Tenho de lhes tirar o chapéu e dizer que foram todos, especialmente os funcionários, inexcedíveis. Cederam números de telefone, perguntaram-nos todos os dias à chegada e à saída se estava tudo bem, preocuparam-se sempre com o que se ia passando, estavam atentos a tudo, disponibilizaram-se desde o primeiro momento a ajudar em tudo o que fizesse falta, sobretudo sabendo que muitos de nós éramos de fora... e por isso sim, a Delegação de Guimarães da Ordem dos Advogados merece um enorme aplauso. Fizeram por nós tudo o que lhes foi possível, ao contrário daquilo a que estamos habituados no que diz respeito à Ordem dos Advogados. De uma Ordem que não nos esclarece as dúvidas, que demora a responder, que falha, que faz muita coisa e falha tanto na defesa dos seus (que devia ser a sua missão), que muitas das vezes parece que anda à espera das nossa falhas para nos dificultar a vida, que recebe o nosso dinheiro e parece querer sempre pregar-nos rasteiras.... vimos uma Delegação que foi exatamente o contrário de tudo isto, uma Delegação que esteve do nosso lado e nos acompanhou em tudo com disponibilidade e com cuidado, que se preocupou e esteve presente desde o primeiro momento para nos ajudar em tudo, e que foi tudo o que a Ordem deveria ser (e quase nunca é). Mas não foi só isto. Guimarães foi também o sítio onde a minha vida começou a mudar: foi o sítio onde decidimos fazer uma venda que será o início da mudança das nossa vidas... e eu fiquei tão feliz! Foi lá, por entre aqueles corredores e aquelas ruas, que eu corri, e telefonei, e perguntei, e disse que sim. E fui tão feliz! Esta venda feliz será sempre associada àqueles corredores. Guimarães foi a S. e foi varrer quilómetros de auto-estrada todos os dias. Guimarães foi a S., foi as conversas intermináveis sobre o trabalho, a vida e o futuro com a Sofs, foram os sorrisos e as brincadeiras com a S. Foram os lanches sempre à pressa e engolidos à pressão, e o tempo sempre contado ao segundo. Foram os casos mais giros de sempre de Processo Penal. Foi o professor mais espetacular de sempre a dar Processo Penal. Guimarães foi também o período em que tive uma conversa difícil sobre (des)amor, do mais díficil que pode haver e daquelas que se tem uma vez na vida... e Guimarães salvou-me, naqueles que foram dias que nunca quis viver na vida. E por isso sim, quando na semana passada saí pela porta... a única coisa que me ocorria dizer era "Fui tão feliz!". Guimarães foi voltar a ser feliz numa sala de aulas, Guimarães foi a venda e o princípio da mudança que mais quero na vida, Guimarães foram os momentos bonitos com a S., Guimarães foram as aulas mais espetaculares de sempre de Processo Penal, Guimarães foi o cuidado e o carinho da Delgação, Guimarães foi sobreviver e (continuar a) sorrir por entre a conversa que nunca queria ter tido. Guimarães foi tudo isto e foi muito mais. Foi, muitas vezes, recordar-me de quem sou e do valor que tenho. Foi (re)descobrir a felicidade numa sala de aulas. Foi muitas das vezes (re)acreditar neste caminho que estou a traçar na Ordem. Foi, muito mais do que tudo isto, um pedaço do dia e da vida que me fazia sorrir. E isso não tem preço. Ainda vamos lá voltar para as aulas facultativas, mas a despedida foi a semana passada. E eu estou infinitamente grata a Guimarães por tudo isto e por me ter, muitas vezes, colorido os dias. Agora sim, Guimarães tem um pedaço de mim. E eu tenho Guimarães guardado numa parte bonita do coração e da memória. Guimarães agora também é minha... e está naquele sítio bonito onde guardamos os sítios que nos pertencem e de que gostamos. Voltarei e prometo um dia explicar ao(s) filho(s) que tiver que a mãe teve aulas da Ordem em Guimarães...e foi muito feliz lá.
