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Manga Lima

Manga Lima

31
Dez18

De 2018

Manga Meia-Loira

2018 chega ao fim. Falta um dia e este número vai-me ficar marcado para sempre com lágrimas. Não aconteceu nada e aconteceu tudo. Foi o ano em que o coração e a alma e a vida me doeram do primeiro ao último dia. O ano em que a ausência deles e o desamor me fizeram duvidar de mim, da vida e do sentido da vida. Recebi três prémios de excelência académica e não consegui ficar feliz. Estive no topo do sonho académico, fui distinguida mais que uma vez pela excelência que demonstrei, em cerimónias públicas e lindas, e não consegui viver isso. Foram dias únicos e especiais que acabei por não conseguir celebrar por causa dos meus pais e do desamor. Os meus pais não estiveram nas duas primeiras cerimónias mas estiveram na última. Fiz uma pós-graduação que há-de virar mestrado por entre lágrimas e uma deceção enorme com a universidade. Não tive uma única sexta de aulas em que não chorasse desalmadamente na viagem toda de volta a casa. Tive sábados que me doeram na vida e na alma. Tive domingos, tantos, em que continuei sem saber para onde vão os barcos que construímos quando estamos tristes e chorei. Andei muito de carro sem destino enquanto chorava para me tentar acalmar. Fiz muitas vezes a estrada entre o Sameiro e o Bom Jesus em lágrimas à procura de nem sei o quê.. talvez de um sentido para a vida e para o amor. Passei muitas, mas mesmo muitas vezes pelo Bom Despacho. Tive tardes de domingo em que peguei e fui dar a volta a Esposende de carro só porque sim ou porque estava profundamente triste e angustiada. Zanguei-me (tanto!) com os meus pais. Fui a Fátima. Os meus pais estiveram cá um mês no verão e fartei-me de chorar. Fui recebê-los ao aeroporto de alma desfeita, coração partido e frágil como nunca me senti. Chorei enquanto passava com eles de carro, num fim de tarde de verão, na praia da Apúlia, e me lembrava da vida feliz (tão feliz e completa) que já tivemos. Quis todos os dias vender o café. Quis, todos os dias, fechar a porta do café pela última vez. Quis todos os dias, mais do que qualquer outra coisa, que eles voltassem. Vi nascer o projeto que os vai trazer de volta. Isso foi o fio condutor da minha vida e da minha esperança. Quis muito que ele ficasse a trabalhar em Braga e ele ficou. Quis muito que ele acabasse a relação dele e corresse atrás de mim e não aconteceu. Fiquei sem chão e gélida de cada vez que ouvi falar do nome da relação dele. Fui abraçada por ele e ouvi coisas tão lindas dele que se calhar não devia e fiquei sempre surpreendida. Ouvi várias vezes que ele não sabe o que quer. Tive momentos de uma esperança enorme, seguidos de momentos de grande desesperança em que só queria que ele desaparecesse. Tive momentos de dor em que só queria que ele morresse para sempre. Um amigo meu suicidou-se e fomos enterrá-lo no meu dia de anos por isso não tive aniversário. No fim do funeral jantamos juntos na casa do meu desamor e até foi bom. Celebrei, por uma série de circunstâncias e acidentes, o meu aniversário na casa dele. Fiz consultas de psicoterapia seguidas do início ao fim do ano. Tive uma consulta em Maio e outra em Agosto em que só chorava de tão cansada e frágil que estava. Vivi dias em que achei que ia mesmo ficar com ele e dias em que só quis encontrar alguém que me apaixonasse para que ele fosse embora do meu coração e isso destruiu-me. Precisei todos os dias, mais do que nunca e mais do que qualquer outra coisa, da família e do lar que não tenho porque eles estão do outro lado do oceano. Fiz jantares em minha casa – nesta casa vazia de vida e de amor e de família – com as minhas amigas. Fui ao bananeiro pela primeira vez. Estive na Amorosa em família. Jantei em família na Bairrada numa noite bonita – talvez das mais bonitas do ano. Despedi-me deles e não estava mal nesse dia em que os deixei no aeroporto. Assinei um contrato de mediação imobiliária para vender esta casa vazia de amor e vida. Quis vendê-la mas já não sei se quero. Tive uma reunião em Janeiro no Nova Arcada que ninguém soube e foi aí que o projeto para eles voltarem começou. Tive uma reunião no Porto para vender esta casa e também ninguém soube. Fui várias vezes a uma consulta de telepatia e também ninguém soube. Ouvi várias vezes que gosto dele, que ele gosta de mim, mas que ele não sabe o que quer. Tive dias em que recusei ir a jantares ou fazer planos com eles por causa dele e porque não ia aguentar. Tentei forçar-me a participar e a estar sempre presente em tudo, ignorando a dor que ele me provoca. Tive muitas, mas mesmo muitas vezes, vontade de lhe dar um par de estalos e dois berros para ele acordar para a vida. Tive alturas em que quis mesmo perguntar-lhe o que se passa e o porquê das cenas que ele me faz. Voltei a ouvir falar da cena que aconteceu na Amorosa mais que uma vez. Comecei a estagiar. Inscrevi-me na Ordem. Fiz um projeto de tese. O estágio tem um dia ou outro feliz mas de resto é uma desgraça. Não tive forças nem coragem para arranjar um estágio noutro sítio ou para procurar e exigir mais. Larguei tudo sempre que foi preciso tratar de questões para vender os imóveis. Acreditei muito que vamos conseguir vender o café  e o apartamento. Ainda não aconteceu mas há-de ser em 2019. Quis todos os dias mudar de casa. Quis todos os dias voltar a ter um lar e uma família com os meus pais. Quis, todos os dias, encher esta casa de vida, família e amor. Quis fazer amor. Quis muito que ele fosse meu – muito mais que o que devia ou podia. Quis muito que, não sendo ele meu, me aparecesse um amor bom. Fiz uma consulta de astrologia e disseram-me que a partir de Maio de 2019 a vida vai melhorar. Fiz uma segunda em Agosto em que ouvi muita verdade e me disseram que estou em fase de terminar muita coisa e é possível que mude de casa. Fotografei algumas vezes a vista do Bom Jesus. Trouxe um Santo António para morar comigo no meu quarto. Marquei cafés com os meu amigos por minha iniciativa. Fiz duas simpatias em Dezembro e uma em Novembro. Entrei muitas vezes, mais do que nos outros anos todos juntos, nesta casa e algumas foram para tratar de papéis para vendas e para o projeto. Estive no Canadá em Outubro no aniversário da minha mãe. Marquei essa viagem no sábado a seguir ao meu aniversário, enquanto chorava no chão do quarto pelo desamor, pela ausência dos meus pais e pela semana de inferno que tinha tido. Conheci muitas pessoas no meio profissional e fui sempre bem acolhida e recebida. Estive na cerimónia de abertura do estágio da Ordem. Um amigo meu terminou uma relação de seis anos e uma vida em conjunto e ficamos estupefactos. As minha amigas querem muito que outra amiga nossa acabe a relação que tem porque dizem que é abusiva. Tive jantares de mestrado e foi bom. Senti todos os dias a falta de um colo onde pudesse rir e chorar. Senti todos os dias a falta de um amor que me deixasse o coração mais sereno e a vida mais leve. Achei muito que esse colo e esse amor fossem ele. Culpei-o muito – tanto! – por essa falta (e ele se não cumprir vai pagá-las e eu estou cá para ver). Culpei muito os meus pais por toda a frustração da minha vida amorosa. Arranjei um orientador de tese. Não comecei a tese mas quero. Estive na cidade no dia em que inauguraram as luzes de Natal e só desejei profundamente que daqui a um ano fosse tudo diferente. Fui fugindo do Natal enquanto pude até desabar completamente em lágrimas o fim-de-semana inteiro, há duas semanas. Tive, apesar de tudo, um Natal tranquilo dentro do que podia esperar. Vou, cinco anos depois, voltar a trabalhar na noite de passagem de ano... e há cinco anos também me sentia completamente perdida. Tentei ouvir música que me fizesse sentir melhor, tentei ler poesia e tentei o trinta um a sete para me acalmar. Tomei algumas vezes Alprazolam e Valdispert. Rezei. Sentei-me algumas vezes no Bom Jesus. Estive nos aniversários dos meus amigos. Desacreditei profundamente de mim, da vida e do amor durante muitos ou quase todos os dias deste ano. Desfiz a ideia errada que tinha de um amigo do meu pai porque tive de trabalhar com ele. Vi uma amiga minha chorar por um desamor como o meu e entendi demasiado bem tudo o que ela sentia. Saí à noite sempre que consegui. Saí de casa sempre que pude. Ouvi-o dizer que deixou de trabalhar com os pais e queria ir viver e trabalhar para outro sítio e fiquei gelada e sem chão. Não aconteceu e ele acabou no sítio onde eu queria muito que acabasse. Soube que ele tinha planos para vir viver para cá com a relação dele e fiquei estupefacta. Era a última das últimas coisas que queria que acontecesse e não aconteceu. Vi uma amiga minha com o pé todo torcido estatelada no chão e ficamos aflitas a chamar uma ambulância e com um almoço que ia ser bonito estragado. Ganhei as chaves do escritório. Descobri o Citius. Conheci clientes de que gostei e outros de quem tive uma pena profunda. Estive no Tribunal de Família em trabalho algumas vezes e saí de lá a perguntar-me a mim própria como é possível que a vida de alguém bata tanto no fundo. Achei, durante todos os dias do estágio, que não quero uma vida assim para mim. Fiz o último teste da universidade na pós-graduação. Estive várias vezes no meio do nosso projeto sozinha e escrevi coisas lá. Fingi, todos os dias o mais que pude, que no geral estou bem e está tudo bem. Não comprei roupa nem sapatos nem tive necessidade nem espírito nem vontade para compras. Fiquei presa na varanda do escritório. Vi uma procuradora sacar da esfregona em pleno tribunal e ri-me. Requisitei livros na biblioteca para a tese que não tenho usado, mas quero usar. Prometeram-me uma ida a uma conferência a Budapeste. O meu pai há-de vir cá daqui a três meses. A primeira fase do nosso projeto há-de estar pronta daqui a três meses. As minhas amigas continuaram solteiras. Não devia dizer isto mas ainda bem porque caso contrário é que batia no fundo. A minha prima também. Gostava muito que encontrássemos todas um amor doce em 2019. Fui parada pela polícia mas não fui multada. Fui ao cinema com a minha irmã sempre que pude. Houve um filme em que saí de lá a chorar por causa do (des)amor. Fiquei desiludida com os meus pais quando chegaram cá e quiseram ficar em casa a trabalhar. Fui ao batizado da Mafalda. O escritório desta casa vazia de tudo virou centro de transações imobiliárias. Deixei o notário constrangido porque o cumprimentei com dois beijos. Desejei profundamente sentar-me naquela mesa a assinar a escritura do café. Sentei-me sozinha na mesa de pedra numa tarde verão e desejei profundamente vender a casa e encontrar um amor no meio daquele momento. Sentei-me neste meu quarto em lágrimas a escrever isto há algum tempo. Quero que 2019 seja o ano de mudar a decoração deste quarto, instalar-me definitivamente aqui e encher estas paredes de vida e de amor. Há-de ser. Falta um dia para acabar. Não sei se está tudo mal...Durante muitos ou quase todos os dias deste ano fui uma alma perdida de coração desfeito. 2019 vem com promessas de mudanças. Muitas mudanças e mudanças muito boas. Assim seja.

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